A vida como um arranjo de flores

25 de agosto de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: vida

Uma especialidade de Santiago consistia em preparar arranjos de flores para as festas. Ele dava, aos diferentes arranjos, nomes musicais, cantata, scherzos etc. Quando os terminava, ficava a fim de lhes pedir (aos arranjos) que cantassem, assim como Michelangelo perguntou “Por que não falas?” à sua estátua do Moisés (Santiago corrige a lenda, preferindo o Davi).

As flores dos arranjos logo murcharão, mas o importante é que elas desabrochem na hora efêmera da festa, mostrando o esplendor de cada flor e a harmonia do arranjo. Como um arranjo, uma vida não se justifica por sua duração, nem pela lembrança, nem pelo aplauso dos outros, ela se justifica por sua harmonia intrínseca.

Contardo Calligaris, em seu artigo sobre o filme “Santiago” de João Moreira Salles na Folha de S.Paulo, 23/08/2008. (Acesso para assinantes aqui).

Neste Dia dos Pais, o que é ser pai hoje em dia

12 de agosto de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: sociedade, vida

Eis um assunto que aparece pouco nas manifestações culturais. Há uma infinidade de filmes, livros e canções sobre ser mãe, e a quantidade de pinturas Madonna con Bambino expostas nos museus não dá para medir. Também são muitas as histórias do ponto de vista dos filhos, em geral revoltados contra os pais, com quem se confrontam e depois, às vezes, se confortam – como na Carta ao Pai, de Kafka, ou em Quase Memória, de Cony. Há também muitas sobre ser irmão. Mas raras dão atenção à paternidade, às dúvidas e delícias do ponto de vista do pai, e não me refiro a histórias de filhos doentes. É sempre como se a relação maternal fosse mais intensa e, bem, umbilical. Pode até ser. Mas eu, como pai, neste Dia dos Pais, não posso deixar de apontar o fato de que somos injustamente relegados a segundo plano.

Daniel Piza, numa bela reflexão sobre o que é ser pai. Leia na íntegra aqui.

Solidariedade Zero

29 de julho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: politica, vida, ética

[...] Tchekhov, no conto Angústia, narra a triste solidão de um cocheiro que, tendo perdido o filho, não encontra nenhum ouvido disposto a escutá-lo. “Logo vai fazer uma semana que o filho morreu – diz o narrador – e ele ainda não conversou direito com ninguém… É preciso conversar com vagar, com calma… É preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, como morreu. É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospital para buscar a roupa do defunto.”

Familiares e amigos dos passageiros e tripulantes do Airbus-A320 sentem-se como o cocheiro de Tchekhov em se tratando de nossas autoridades públicas. O cocheiro encontrou o consolo de, afinal, desabafar com a égua que lhe movia a carroça. Mas nossas autoridades, à exceção do governador paulista e do prefeito da capital, não compareceram aos hotéis em que os familiares se hospedam em São Paulo, nem às celebrações litúrgicas, nem ao enterro de corpos identificados. Ainda que o fizessem, seria um consolo? Jamais. Porém, seria um gesto de grandeza cívica, de quem representa a nação e, em nome dela, sabe irmanar-se na dor, assim como não perde a oportunidade de irmanar-se na alegria.

E seria um gesto de que a tragédia do dia 17 de julho não se reduz a mero acidente que exime os órgãos públicos de qualquer responsabilidade. Quando o poder se coloca ao lado das vítimas, ele aprende a mudar seu modo de proceder. E se humaniza.

Frei Betto, texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 27/07/2007. Via Pavablog.

Conversa cabeça… e coração

28 de julho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: vida

Este é um pequeno diálogo hipotético entre dois personagens: a Cabeça e o Coração. O primeiro pode representar a Modernidade e o segundo alguma coisa que se deixou na Idade Média. Também pode representar o que acontece no dia-a-dia, o critério que temos para as decisões que tomamos.

O Coração diz: “quero!”, mas a Cabeça, com suas ardilezas racionais, diz: “são tantas barreiras! Tantas dificuldades! De acordo com a probabilidade…”. E o Coração retruca: “Cabeça, a vida tem que ser vivida como uma obra de arte, e não como um algoritmo matemático!”. A Cabeça se zanga e grita: “mas assim se sofre menos!”. E o Coração – o mais gentil dos órgãos, porque se doa 24 horas por dia para que os outros órgãos sobrevivam – fala em tom conciliador: “se sofre menos e se vive menos. Por que ter medo da dor? Dor é parte da vida, não algo antagônico a ela. O pintor, antes de começar seu quadro, sofre em seu ato criativo, sofre pela imagem não vir a sua mente, pela sua falta de inspiração ou por pensar que deu a pincelada errada. Ele pode desistir, pode querer passar pela vida sem mais complicações, mas deixará de ser um pintor”. A Cabeça, mais calma com a voz tranqüilizadora do Coração, perguntou: “mas, o que devemos fazer?”. O Coração, de modo amável, mas firme, disse: “o que vale na vida é viver. A felicidade é a vida que é jorrada, doada e amada. Quando se vive assim, as coisas acontecem, principalmente por maneiras que nunca poderíamos ter previsto”.

Então, a Cabeça racionaliza todas esses informações, faz uma “análise crítica” e afirma como um resultado de uma pesquisa científica: “são palavras bonitas, mas o que vale é a lógica, a premeditação, o planejamento, o controle. É isso o que conta e que é viável, e não esse seu romantismo e ingenuidade que embaçam a realidade!”. O Coração se calou. Sabia que era um romântico. Mas dava um outro sentido para a palavra. Romântico para ele é aquele que revela algo de cavalheiresco, de apaixonado, de nobre, que se eleva acima de uma realidade prosaica e banal. Mesmo assim, o Coração se recolheu, cessou seu diálogo com a Cabeça. Ela saiu vitoriosa. E o Coração continuou a bater todos os dias, todos os momentos, se doando a todos os órgãos. Inclusive para a Cabeça.

Dinheiro traz felicidade

26 de julho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, economia, sociedade, vida

 

Desde que os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia descobriram que milionários americanos que moram em mansões são só marginalmente mais felizes que guerreiros massai que vivem em choupanas, vários economistas vêm minimizando o nexo entre dinheiro e satisfação.

Num livro de 2005, Richard Layard, estudioso britânico, diz que ambiente familiar, emprego e saúde são, todos, fatores mais influentes para a sensação de bem-estar do que a renda.

riam ser mais felizes que os pobres, mas, além de determinado limiar, a relação enfraquece, e mais dinheiro não compra mais felicidade, diz a teoria.

As novas pesquisas lançam alguma dúvida sobre essa escola de pensamento.

Os dados coletados dão maior peso ao argumento segundo o qual crescimento e renda desempenham um grande papel na substancial melhoria da satisfação das pessoas com a vida e de sua atitude em relação ao futuro.

Reportagem do The Economist traduzida e publicada no Valor Econômico. Leia o texto na íntegra aqui.

Viver é estar atento ao Outro

17 de julho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: filosofia, vida, ética

Para Rorty, pensar era um modo particular de viver, e viver era estar atento ao Outro. Era um exercício constante de colocar-se em seu lugar e imaginar o que poderia torná-lo mais livre ou mais submisso, mais feliz ou mais miserável, para, então, decidir o que era humanamente útil, e, conseqüentemente, moralmente verdadeiro. Embora agnóstico, é impossível não escutar em suas palavras e atitudes ecos da fé cristã de Agostinho, que traduzo, com “licença rortyana”, como: “Quem sou eu” e, “Quem eu amo quando amo o Outro”. Embora irônico, e, às vezes, brincalhão e provocador, é impossível não ouvir no que ele disse os rastros da “infinita responsabilidade pelo Outro” de Lévinas. Embora um asceta do pensamento, cuja sobriedade resistia à sedução de quaisquer piruetas conceituais, é impossível não ver o espectro do insaciável desejo de justiça de Derrida, sublinhando, suavemente, tudo o que escreveu. Em suma, o pensamento rortyano é um condensado, um magnífico breviário do que melhor se produziu em matéria de ética no domínio da ética ocidental. E, apesar de ser ele avesso à mitificação ou á mistificação dos grandes nomes da Antigüidade filosófica, não há como deixar de comparar sua obra com o que disse o estóico Sêneca: “Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então, rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação”.

Rorty foi um exemplo de dignidade em forma de vida. Infelizmente, estou certo de que nenhuma gratidão sentida pode estar à altura da dádiva recebida. Resta, então, dizer novamente com Sêneca: “nada nos pertence daquilo que o acaso nos traz”. Mas acrescentar com Freud que fazer o luto dos seres queridos significa guardá-los no coração e na memória para fazê-los viver além da morte. Adeus Rorty. Ou melhor, adeus “Dick”.

Jurandir Freire Costa em um texto em honra da memória do filósofo Richard Rorty. Leia o texto na íntegra aqui.

Sagrado segundo Rorty – uma bela frase

16 de junho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: filosofia, religiao, vida

[...] “meu sentido do sagrado está atado à esperança de que algum dia meus remotos descendentes vivam em uma civilização global em que o amor será a única lei”.

Frase do filósofo americano Richard Rorty, citado no seu obituário escrito por Habermas.

Veja também:  Morre o filósofo Richard Rorty.

Empreendimento social – nova proposta para a diminuição da pobreza

8 de junho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: administracao, economia, politica, sociedade, vida

Suponhamos que um empresário, em vez de contar com uma única fonte de motivação (tal como a maximização dos lucros), possua agora duas fontes de motivação: maximizar os lucros e beneficiar o povo e o mundo.

 

Cada tipo de motivação gera um tipo diferente de negócio. Chamemos o primeiro tipo de empreendimento para a maximização do lucro, e o segundo tipo de empreendimento social.

 

O empreendimento social será um novo tipo de negócio introduzido na esfera do mercado com o objetivo de fazer uma diferença para o mundo. Os investidores em um empreendimento social poderão recuperar o dinheiro investido, mas não receberão nenhum dividendo da companhia.

 

Os lucros serão injetados de volta na companhia para expandir o seu alcance e melhorar a qualidade dos seus produtos e serviços. Um empreendimento social será uma companhia sem perdas e sem dividendos.

 

Tão logo a empresa social seja reconhecida pela lei, várias companhias existentes tomarão a iniciativa de criar um empreendimento social além das suas atividades tradicionais.

Ao contrário do setor sem fins lucrativos, no qual é necessário coletar doações para manter as atividades em andamento, um empreendimento social será auto-sustentável e criará lucro para a expansão, já que se trata de uma empresa sem perdas.

 

Jovens em todo o mundo, especialmente nos países ricos, acharão o conceito de empreendimento social muito atraente já que ele lhes proporcionará um desafio no sentido de fazer uma diferença ao usarem o talento criativo.

 

Quase todos os problemas sociais e econômicos do mundo poderiam ser resolvidos por meio dos empreendimentos sociais. A paz está intrinsecamente vinculada à pobreza, e a pobreza é uma ameaça à paz. E não podemos lidar com o problema da pobreza no âmbito da ortodoxia do capitalismo pregado e praticado nos dias de hoje.

 

O desafio consiste em inovar os modelos empresariais e aplicá-los para a produção dos resultados sociais desejados, de forma eficiente e efetiva sob o ponto de vista dos custos. Podemos criar uma alternativa poderosa: um setor privado guiado pela consciência social, criado por empreendedores sociais.

Artigo de Muhammad Yunus, ganhador do prêmio Nobel de Paz, sobre uma nova proposta para o problema da pobreza. Leia o artigo na íntegra aqui.

Leia também: Pioneiro do microcrédito ganha Prêmio Nobel da Paz

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