Desvalorização das idéias no Brasil

2 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: cultura, educacao, sociedade

Para quem tem poder, o sucesso não se explica pelo domínio abstrato das idéias, mas por meio de uma misteriosa ‘prática’ ou ‘conhecimento da realidade’ da ‘vida’. É o saber do propalado caminho das pedras que não se ensina a ninguém. [...] Todos os poderosos dizem que ‘lutaram muito’, que foram ‘muito ajudados’, que souberam ‘aproveitar oportunidades’. Poucos falam de idéias. Uma microminoria fala, quando fala, de que essas idéias saíram das salas de aula e dos livros.Como um povo que, na sua longa fase escravista, cultivou o analfabetismo e a mais bestial ignorância e, na modernidade republicana, a desigualdade social baseada no ‘diploma’, as ‘letras’ sempre foram vistas com desconfiança. [...] A autoridade – pelo menos no Brasil, faz: tenta fechar, proibir, prender, calar. Um dos seus trunfos é o argumento da prática contra o poder das idéias.Da caneta contra a letra; do regimento constitucional (as idéias feitas), contra o livro que ensina não apenas o poder das idéias, mas as suas implicações e responsabilidades.A ambigüidade do livro é o símbolo vivo dessa intolerável desvalorização das idéias em nosso país.

Do artigo de Roberto DaMatta. Leia aqui .

Show de Loreena McKennitt

23 de março de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: arte, cultura, musica, vida

Show de Loreena McKennitt

Ontem fui ao show de Loreena McKennitt , um antigo sonho, desde que conheci sua música numa fita K7 que um amigo meu – hoje padre Alexandre – me emprestou. Ainda me lembro daquela noite em que estava escrevendo minha dissertação de mestrado, em 2000. Era 11:00 da noite e coloquei a fita para tocar, sem pretensão. Havia muito tempo que nada me surpreendia musicalmente, apenas gostava ou não. Comecei a escrever e a música a soar. Num certo momento senti uma leveza no coração e não sei bem o porquê, lágrimas vieram. Por isso, quis conhecê-la um pouco mais e comprei seus CDs, que sempre estiveram muito comigo, principalmente em momentos que era preciso sentir um pouco mais a beleza. Considero-a a artista atual que melhor consegue extrair beleza da melodia. E como a melodia é fundamental para mim, Loreena é a minha compositora favorita. E tive a oportunidade de assisti-la no Teatro degli Arcimboldi , em Milão. A turnê que está passando pela Europa é de seu novo trabalho, An Ancient Muse , canções encantadoras que remetem a viagens e a nossas heranças universais. O trabalho, inspirado no livro Odisséia, de Homero, é o primeiro trabalho inédito desde 1998, ano de falecimento de seu noivo, em um lamentável acidente de barco.

Show de Loreena McKennitt O cenário do show estava impecável e os efeitos das luzes nos absorviam para o mundo que ela cantava. As músicas dos outros álbuns tiveram bastante destaque e muitas delas empolgaram o público, que expressaram muito carinho por Loreena por meio de aplausos demorados e três pedidos de bis. Além da instrumentos inusitados que ela usa em suas músicas – como o nyckelharpa (violino dedilhado da Escandinávia) – me chamou a atenção quando ela disse que o álbum também é sobre as pessoas que viajam para poderem se conhecer e se encontrar. De alguma forma isso sempre esteve presente em várias civilizações ao longo de nossa história. E me tocou particularmente porque estou fazendo uma viagem – por dever profissional – mas que está tocando profundamente minha alma. E Loreena me ajudou a entendê-la.

Para se ter uma pequena noção de como é o seu show, acesse dois vídeos de um concerto na Espanha, em que interpreta duas canções de seu novo álbum: Penelope’s song e Caravanserai . Boa viagem!

Cartas à milanesa (II)

11 de março de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: civismo, comportamento, cultura, ensaio, sociedade

Comecei a notar algumas diferenças entre o estilo de vida dos italianos e a nossa. Algo que fica muito evidente é como eles conseguem viver o espaço público. No Brasil temos receio de freqüentá-lo e cada vez mais raramente podemos usufrui-lo, por estar deixando de ser público e se tornando privado, virando moradia de mendigos, ponto de prostituição ou de venda de ambulantes, entre outros. Há muito a praça deixou de ser lugar de encontro e fonte do sentimento de pertença à cidade. Em Milão, as praças são lugares onde as pessoas podem caminhar e “dar um tempo”, ou ainda se encontrar com pessoas para conversar, comer e beber algo. E eles sabem muito bem comer e beber. A qualidade da comida que se consome cotidianamente é superior ao Brasil. Para ter essa qualidade, precisamos gastar muito mais.

O transporte público parece funcionar bem. Em Milão há ônibus, bonde, trem e metrô. Todos os transportes públicos são usados sem percebermos uma distinção de classe, como vemos no Brasil. Nos três anos que fiquei em São Paulo não me lembro de ter visto alguém da classe média levando seu filho em carrinho de bebê no metrô. Isso é muito comum aqui. Há uma razão para o uso intensivo de transportes públicos: em Milão, é muito difícil de se andar de carro porque não há muitos estacionamentos e vagas, uma fonte de desestímulo – não sei se intencional ou não. Como a cidade é plana, também podemos ver pessoas de trajes elegantes indo de bicicleta para o trabalho ou escola, algo muito inusitado para os paulistanos.

Em todas as viagens de metrô que fiz aqui sempre surgiu alguém no vagão pedindo dinheiro ou tocando alguma música no violino ou acordeom para ganhar alguns trocados. Em sua maioria são pessoas vindas de países do Leste Europeu e que fazem parte do contingente da camada mais pobre da cidade, juntamente com os marroquinos. Aqui é muito comum se afirmar que os pobres não são os italianos natos, mas esses imigrantes. [Continua]

Cartas à milanesa (I)

10 de março de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: comportamento, cultura, ensaio, sociedade

Estou morando em uma numa cidadezinha chamada Cernusco Sul Naviglio , distante 10 quilômetros de Milão . É uma comune (como eles chamam aqui) de 13 quilômetros quadrados e 30 mil habitantes. A primeira coisa que me chamou a atenção foi sua beleza. A natureza, muito presente, é apreciada em suas sete praças e dois parques e todo o espaço público é muito bem cuidado. Nas praças sempre há pessoas conversando e tomando café aproveitando o sol da manhã. No rio Naviglio, que atravessa a cidade, há patos nadando, algo bem estranho para alguém que vem da cidade de São Paulo. Bom, confesso que aqui tudo é muito estranho. A vida é calma, os horários do comércio são variados – porque cada negócio tem o seu, que é exposto na porta –, as pessoas saem nas ruas tranquilamente com os seus filhos em carrinhos de bebê e as praças são lugares onde as pessoas sentam e conversam. Tudo muito estranho…

Na primeira vez que fui à cidade de Milão de metrô, as pessoas que estão me hospedando ficaram preocupadas porque é a maior cidade da Itália e, como toda cidade grande, tem seus perigos. Também fiquei apreensivo. Mas havia me esquecido que a população de Milão, de dois milhões de habitantes, equivale ao número de pessoas que freqüentam por dia o metrô de São Paulo. A sensação que tive foi a de chegar numa cidade de interior: era calmo, sem os formigueiros humanos que me acostumei a fazer parte em São Paulo. Fui logo para o centro histórico, na Piazza Duomo (Praça Catedral). Fiquei sem fôlego ao ver a catedral medieval e estranhei como a praça é bem freqüentada. Conheci a famosa Galleria Vittorio Emanuele , dedicada ao primeiro rei da Itália. Perambulei pelas ruas e em todo lugar que eu ia tudo era muito bonito. [Continua]

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