Foto de um dos parques da cidade de Cernusco Sul Naviglio, próximo a Milão. Acervo pessoal
Domenico de Masi , professor de sociologia da Universidade La Sapienza de Roma, é conhecido no Brasil por seus trabalhos sobre a criatividade, importância do tempo livre e sociedade pós-industrial (centrada na produção de bens imateriais, como a estética). Para quem conhece um pouco a Itália ou já esteve lá, não se espanta que essas idéias sejam defendidas por um italiano. No meu entender, é o típico caso de um contexto cultural exercer forte influência sobre as idéias: são as idéias dentro do lugar.
A primeira impressão que tenho da sociedade italiana é que o senso estético inunda todos os vínculos sociais. Para citar um exemplo, por lá, quando eles gostam de um filme (mesmo os de terror), não dizem que ele é bom – como dizemos por aqui – mas que é bello , uma das palavras mais usadas por eles. Outra característica que noto é que eles levam a sério o tempo livre ( tempo libero ), uma expressão também muito usada. É o tempo do não trabalho, que eles aproveitam para freqüentarem as praças públicas a partir das 17 horas, por exemplo. Em Milão, as praças são lugares onde as pessoas podem caminhar e “dar um tempo”, ou ainda se encontrar com pessoas para conversar, comer e beber algo. E eles sabem muito bem comer e beber. A qualidade da comida que se consome cotidianamente é superior ao Brasil. Para ter essa qualidade, precisamos gastar muito mais.
E isso me faz pensar se as idéias de De Masi não ficariam um pouco fora de lugar no Brasil. De fato, elas são muito atraentes, mas me pergunto sobre a qualidade de nosso tempo livre, quando o temos. Uma questão crucial, a meu ver, é que nossos espaços públicos, onde poderíamos usufruir desse tempo, estão degradados: são feios, não oferecerem segurança, e muitas vezes distantes. Há muito a praça deixou de ser lugar de encontro e fonte do sentimento de pertença à cidade. O que deveria ser regra, é privilégio: sentar em um banco de praça sem ser perturbado ou ter medo de ser assaltado. Talvez a palavra “deveria” seja a chave. Quando uma idéia está dentro do lugar, é possibilidade, e é preciso apenas de “mudança de mentalidade”. Mas quando uma idéia está fora do lugar, vira desejo e, assim, “gostaríamos” e “deveríamos” ter essa possibilidade. E, dessa forma, continuamos a aguardar o futuro, nem que seja o do pretérito.
Publicado na GV-executivo, São Paulo, v. 7, n.1, p. 19, 2008 .
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