Um dia um sujeito me procurou no fim de suas esperanças. Eu o mandei a um amigo, dono de uma loja, com um bilhete: “este na sua frente é meu irmão de sangue. Por favor lhe arrume um emprego”. Em seguida meu amigo me liga: “Mas Dom Helder, como um irmão seu foi cair na mais profunda miséria?” Eu lhe perguntei: “O emprego dele está garantido?” Foi quando meu amigo percebeu: ”O senhor me enrolou, ele não é seu irmão!” E eu lhe garanti: “Mas como não, se somos filhos do mesmo Pai?”
“É difícil dar. É necessário conquistar através do amor o direito de dar.”
“Se eu dou comida aos pobres, eles me chamam de santo. Se eu pergunto por que os pobres não têm comida, eles me chamam de comunista.”
“Na pobreza, existe apenas o indispensável, mas existe. Na miséria, nem o indispensável existe.”
“Melhor do que o pão é a sua partilha, sua divisão!”
No verão de 2002 eu escrevi: “a beleza, seja das formas, dos atos e dos pensamentos, me altera, me emociona. Tenho a sensação que quando encontro a beleza, é como alguém que, num lugar estranho, reconhece algo de familiar. Parece-me que, estando neste mundo, reconheço na beleza das pessoas e das coisas meu lar”.
E foi assim que eu me senti ao assistir o documentário Dom Helder Câmara – o santo rebelde, que está em cartaz em São Paulo, resgata sua trajetória religiosa e política, sempre marcada pela “opção preferencial pelos pobres”. Indicado três vezes para o prêmio Nobel da Paz, idealizador e fundador da CNBB, encarnou com autenticidade o amor cristão, que é fruto do despojamento e coragem. Combateu com veemência a ditadura militar e sempre lutou para que a Igreja Católica se aproximasse cada vez mais dos empobrecidos. Por causa de sua luta para que “todos tenham vida e em abundância”, sofreu perseguições do governo militar e sanções dentro de sua própria igreja.
No momento em que estamos – com a ênfase das várias igrejas na solução de problemas individuais, marcado por uma espiritualidade de resultados – assistir Dom Helder em suas preleções incisivas, mas amorosas, ao mesmo tempo me deu saudade do tempo das CEBs (comunidades eclesiais de base) e fôlego para acreditar na humanidade.
O documentário é muito rico, bem construído, e uma fonte inestimável para a memória nacional. Mas o que me prendeu, o que me tocou, foi ver em uma única pessoa uma reunião muito rara de profeta, herói e santo. Sem dúvida, ele foi uma das pessoas mais bonitas que eu já conheci.
E, por coincidência, hoje é o aniversário do sétimo ano de seu falecimento. Para conhecer um pouco mais de sua vida, acesse aqui.
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