Categorias: empresa, ensaio, sociedade
O artigo escrito pelo Pedro Bendassolli e por mim na Gv-executivo teve repercussão, sendo comentado pelo blog da jornalista Carla Rodrigues. Leia aqui .
O artigo escrito pelo Pedro Bendassolli e por mim na Gv-executivo teve repercussão, sendo comentado pelo blog da jornalista Carla Rodrigues. Leia aqui .
Acabou de ser publicado na GV-executivo de jan-fev. 2007 um artigo que escrevi com o meu amigo Pedro Bendassolli sobre a questão da infantilização do adultos e sua repercussão nas organizações. Para lê-lo, acesse aqui .
Passei no supermercado Pão de Açúcar para comprar algumas coisas e como acontece todo domingo, faltam caixas para o atendimento e filas enormes se formam. Deve ser para dar a dose de estresse diário, que não poderia faltar no final de semana. Mas o que me chamou a atenção não foi a desorganização da empresa, que de caixa parecem não entender muito (lembro do episódio da venda pelo supermercado dos ingressos do show do U2 no começo deste ano, que teve sérias falhas, inclusive com repercussão internacional).
Ao notarem a fila e a impaciência dos clientes, o pessoal do supermercado abriu mais dois caixas. O que seria mais justo? Que as pessoas que estavam na fila há um bom tempo tivessem prioridade e fossem convidadas para irem para esses caixas. Mas o que aconteceu foi que as pessoas que estavam acabando de chegar, ao verem o caixa abrindo, foram as primeiras a serem atendidas. Não olharam para os lados, não quiseram saber o que seria mais justo ou mais gentil. A empresa errou ao não organizar a abertura dos caixas, mas o que me impressionou foi a falta de gentileza dessas pessoas que “não olharam para os lados”. Foram adiante sem se perguntar se alguém poderia ter a preferência no atendimento. Eram senhoras, pais de família, pessoas de classe média, que muito provavelmente recriminam os “políticos” e acham a corrupção um escândalo.
Penso que a medida para sabermos se uma sociedade vai bem é o grau de gentilezas e honestidade das pessoas no seu dia-a-dia. Assim como as borboletas são os animais mais sensíveis à radiação nuclear e podem servir como alerta a uma catástrofe iminente, o desaparecimento aos poucos da gentileza pode ser um aviso do embrutecimento da sociedade. O episódio do supermercado é uma manifestação desse embrutecimento? Se for, estamos dando marcha a ré no nosso processo civilizatório e cada vez mais longe de construir uma verdadeira nação. Se quisermos que o Brasil seja um lugar decente e que dê certo, é fundamental começarmos com as coisas que estão ao nosso alcance, aceitando de uma vez por todas que justiça e honestidade devem ser vivenciados primeiro por nós, no nosso cotidiano. Caso contrário, estamos reproduzindo em pequena escala o que estamos vendo em grande escala na nossa política por meio dos jornais e revistas. E na maioria das vezes, acreditando que o problema sempre são os outros.
Numa noite dessas tive um sonho com zumbis – desses que estamos acostumados a ver nos filmes – sendo que eu mesmo tinha virado um. Mas era um zumbi tipo light , que não fazia mal às pessoas e bastava que as beijasse (ou algo do gênero) para que elas se transformassem também. No sonho os zumbis podiam voar e eram alegres porque adquiriam capacidades melhores do que os humanos. Pode parecer estranho que eu esteja comentando isso, mas a verdade é que o sonho mexeu comigo. Fiquei me perguntando que metáfora poderia significar. A minha relação com os filmes de zumbis começou quando há algum tempo assisti sem querer ao filme Madrugada dos Mortos , porque estava passando os canais e as cenas me chamaram a atenção. Achei o filme bem feito para o gênero, mas no fim eu me senti muito mal. Ele me passou uma desesperança que me causou desconforto durante vários dias. No filme, todos os esforços dos humanos para se salvarem tinham grandes chances de darem certo, mas sempre eram frustrados pelos zumbis.
Após o meu sonho, então quis me “exorcizar” e aluguei o filme Terra dos Mortos (Land of the Dead), do lendário cineasta George A. Romero . Um ótimo filme para quem se aventura pelo gênero, e mais alinhado com o meu sonho. Para uma boa resenha, recomendo uma publicada no site Omelete , de Érico Borgo. É interessante que você quase torce pelos zumbis e quase se solidariza com eles. Dizem que o filme é uma metáfora ao governo Bush e sua política internacional, principalmente com os países árabes. Faz muito sentido, as metáforas são poderosas e aqui merece reproduzir o comentário de Borgo:
Mas o grande mérito do filme é explorar novamente os problemas da sociedade moderna utilizando inteligentíssimas situações metafóricas. Na história, os mortos estão espalhados pelo planeta e os humanos sobreviventes se mantêm protegidos em cidades-fortaleza. Essa organização feudal remonta à Idade Média, mas apresenta uma perturbadora – e moderna – constatação. Os poderosos aristocratas vivem em torres de vidro imponentes, cercados de exércitos particulares e vivendo em ostentação e negação. Enquanto isso, os indesejados, os desafortunados, ocupam o perímetro de tais construções e fazem o trabalho sujo: varrem as cidades dominadas pelos zumbis a bordo de um caminhão blindado em busca de mantimentos para abastecer as fortalezas.
A estrutura na qual os abastados vivem, liderados pelo poderoso Kaufman (Dennis Hopper, mistura de George W. Bush com Donald Trump), imediatamente lembra a crítica ao consumismo de O Despertar dos Mortos. No entanto, apesar desse elemento também estar presente no novo filme, aqui é a desigualdade de classes e as relações imperialistas que estão no centro do debate. Há os ricos, a classe operária e os zumbis terceiro-mundistas, sendo que os últimos assistem impassíveis ao extermínio de seus irmãos enquanto os recursos de suas cidades são extraídos. Deu pra entender aonde Romero – o brilhante Romero – quer chegar?
E fiquei pensando que no Brasil os zumbis também podem ser útil como metáfora para a nossa estrutura de desigualdade socioeconômica. Quem seriam os zumbis – os morto-vivos – que nos atormentam e nos causam medo por eles se alimentarem de pessoas vivas e que com apenas uma mordida faz com que nos transformemos em um deles? E o zumbi também não poderia ser uma metáfora para os nossos desejos e pulsões (Id freudiano), muitos dos quais detestamos reconhecê-los que estão conosco e que se dermos um mínimo de brecha poderá nos controlar? No final do filme, ao contrário do outro que assisti, ele me deu esperança, quando Riley Denbo ordenou que os tiros contra os zumbis cessassem porque eles, os zumbis, estavam apenas procurando um lugar para ficar, assim como os humanos. A esperança surgiu porque Denbo entendeu que a paz ou a boa convivência entre os diferentes (e não há diferença maior do que a polarização “vivo” e “morto”) está embasada no reconhecimento da semelhança. Foi apenas a partir disso que a guerra cessou. Que as almas mais sensíveis me perdoe, mas o filme é imperdível. E o meu sonho fez mais sentido.
Estava entrando no metrô de São Paulo quando uma senhora, mais ou menos em torno dos 65 anos, pediu uma ajuda. Neguei. Mas antes de passar na catraca, voltei atrás e perguntei para a senhora se a ajuda que ela queria era passar para pegar o trem. Ela respondeu que sim. Perguntei o seu nome e ela me respondeu “Regina”. “E o meu é Mauricio”, disse a ela, que me pareceu não fazer a menor diferença em saber. Quis com isso apenas tentar fazer com que o ato da esmola não fosse impessoal. Mas não consegui. Passei a senhora com o meu passe de metrô, ela não me olhou e se foi. Não fiquei chateado pelo fato de ela não ter me agradecido, mas pelo comentário de um dos funcionários do metrô: “ela é freguesa daqui!”. Me senti frustrado, com aquela sensação de ter sido enganado. Isso me ajudou a pensar algumas coisas.
Independentemente de a senhora ter me engano ou não, me veio o pensamento que a condição socioeconômica de alguém não me autoriza a deduzir qualquer característica moral dela. Entre os pobres existem os oprimidos, mas também opressores em potencial. Existem pobres que usam de sua condição social e enganam pessoas utilizando seus filhos e performances quase que teatrais para ir direto ao nosso sentimento de culpa, mas também existem pessoas que realmente precisam de um ajuda, e que são sinceros ao mostrar suas dificuldades. Numa sociedade desigual como a nossa, uma das coisas que nos iguala é a nossa capacidade de beneficiarmos à custa dos outros, independentemente de nossa classe social. E como resolver isso do ponto de vista pessoal, para não ficarmos apáticos ao sofrimento dos outros? Uma postura que vou adotar será a de conhecer a pessoa que vou ajudar, fazer com que aquela interação não seja impessoal, despersonalizada ou anônima, de maneira que não seja apenas eu a influenciar a vida dela, mas que ela também possa influenciar a minha, tornando-se assim uma relação de paridade e não uma relação hierárquica quando temos alguém que dá uma esmola e uma outra que recebe.