Tinha mais ou menos 10 anos de idade quando estava conversando com um amigo meu sobre o que a prefeitura deveria fazer para melhorar a cidade. Não me lembro o que sugeri, mas me recordo bem o que o meu amigo propôs: “o prefeito deveria fazer vias para as carroças que trafegam na avenida”. Balancei minha cabeça desaprovando sua ingenuidade. “Primeiro, o número de carroças não é lá essas coisas para se gastar dinheiro com isso e, no futuro, elas não existirão mais”, argumentei com ar de superioridade diante do suposto erro de avaliação e projeção do meu amigo.
Era uma época em que apenas os cães e os gatos reviravam os lixos para sobreviver. As carroças eram utilizadas como um meio de transporte por alguns pessoas que não moravam no centro e que iam para a “cidade”, bem vestidas e à procura de objetos e comidas “modernas”. Lembro do “seu” Gentil, que anunciava sua chegada com o som de uma corneta, pontualmente às quinze para o meio-dia, vendendo seu leite misturado com um pouco de água. Saía correndo, com a leiteira na mão, ansioso para embarcar em sua carroça e passar a mão na cabeça de seu cavalo, o Baio, que se alimentava da grama cortada que guardávamos das terríveis tardes de sábado, dia mundial da limpeza do pátio. Colocava, então, o leite para ferver, e ficava esperando, meio entediado, até a espuma quase derramar, me achando o máximo pela minha “precisão”. Apesar de hoje usar apenas o de caixinha, ainda consigo sentir o aroma daquele leite fervido.
Também tenho uma foto daquela carrocinha puxada por um bode, tirada numa praia há pelo menos 25 anos. Isso sem contar as visitas aos meus parentes que moravam no interior e que sempre me levavam para andar de carroça, puxadas à cavalo ou por bois.
São recordações que têm como elemento central a carroça. Agora, ao andar de carro pela cidade, volta e meia me deparo com uma. Mas não é mais um encontro idílico. É um encontro que me violenta pela indignidade. Crianças, idosos, às vezes famílias inteiras, lutam pela sobrevivência, coletando materiais que podem ser reciclados, vendendo a atravessadores que se aproveitam da delicada situação dos catadores. Situação provocada por um Estado ineficiente em promover o bem público, protegendo os mais fracos dos mais fortes. E agora me veio à cabeça: “o que posso fazer?”. À curtíssimo prazo me propus a não me zangar mais quando eu encontrar uma carroça que esteja atrapalhando minha passagem. Ou seja, respeitar seu trabalho como gostaria que respeitassem o meu. E no fim das contas, aquele meu amigo de infância e o tempo me mostraram que, na verdade, o ingênuo dessa história fui eu.
Mauricio C. Serafim
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