Categorias: comportamento, cultura, filosofia, religiao, vida
Referindo à escada do amor de Platão, Renée Weber afirma que o passo inicial nesta escada, para a maioria dos humanos, ocorre por meio do amor físico quando uma pessoa busca um complemento à sua incompletude. Mas se toda a sua manifestação de amor for restrita a essa única pessoa, e especialmente à forma física dessa pessoa, ela se desligará do Universo imenso e do imenso potencial da humanidade. Quando se está muito apaixonado, é como se o Universo estivesse concentrado nessa outra pessoa. Em certo sentido o Universo está nessa pessoa, mas é preciso transformar essa dimensão – ver não apenas ela, mas o Universo nela. O amor platônico, então, é (ao contrário do que é entendido no senso comum) um amor tão amplo, tão comovedor e tão universal que, embora comece como um amor pela forma bela, termina como um amor pela própria beleza, um principio eterno do Universo. Nos leva a perceber que todas as formas belas são dignas de amor. Você generaliza e se torna sensível a todas as formas belas. A beleza das idéias torna-se tão real quanto, e de mais real do que, a beleza física. O amor e a beleza estão ligados, porque você vê a beleza quando está amando, vê a beleza da mente, você se apaixona pela qualidade da mente da outra pessoa.
Sendo o primeiro passo o amor físico que depois transcende, o passo número dois é amar todas as formas físicas belas. O terceiro é amar a beleza da mente sem distinção da forma física à qual ela esteja associada. O quarto passo da escada do amor é o amor pelas práticas belas – a ética (manter a casa limpa). A integridade, a justiça, a bondade, a consideração – tais características também tem beleza e conduzem ao passo número cinco, que é o amor pelas instituições belas (a revista que está nascendo pode ser uma destas instituições) que representam o coletivo. O sexto degrau da escada do amor, a sexta manifestação do amadurecimento do amor é uma curva gigantesca para o alto, em direção ao universal e ao abstrato, é o que Platão denomina “ciência”, isto é, conhecimento e compreensão. Os grandes cientistas tais como Einstein, Kepler, Galileu, Newton afirmaram que ao articularem as leis do Universo, estavam estudando a lógica, a ordem e a beleza da mente de Deus. Todos tinham uma espécie de paixão pela ciência e pelas leis do Universo. Giordano Bruno preferiu a morte à negação desse amor. O sétimo degrau é a passagem substancial, não mais a manifestação ou exemplo de beleza, mas a beleza em si. O ponto mais alto, o amor pela manifestação eterna da beleza em si. Não mais a paixão pela forma bela mas pela sua essência, que torna bela todas as coisas. A beleza na sua origem. O amor mundano e físico foi o inicio da busca da totalidade. O ponto de chegada é a visão do Universo, que liga o individuo à sua origem suprema, infinita.
Platão não deprecia o amor entre um homem e uma mulher – antes mostra que eles fazem parte desta ascensão ao divino, ao espiritual e ao imortal. O amor físico é um tal catalisador que conduz à paixão pelo Universo inteiro. O amor habilita-nos, a partir das belezas da Terra, a subirmos ao céu, diz Platão. O que começou no tempo, termina na eternidade; o que começou com o toque de uma pessoa, termina no abraço ao Universo.
Resumo da entrevista com Renée Weber feita por Scott Miners, intitulado “A visão espiritual da relação homem e mulher". E-mail enviado por Valdir Fernandes.
[…] Às vezes, na insônia, como diria Elias Canetti, ouvimos os ruídos do corpo e sentimos a fragilidade da vida que nos escapa. Certa feita, o escritor israelense Amóz Oz me disse, numa entrevista para a Folha , que tem o hábito de caminhar pelo deserto todas as manhãs. Esse hábito o ajuda a compreender melhor a condição humana.
Por quê? Amóz Oz tem em mente a antiga tradição religiosa de caminhar pelo deserto a fim de percebermos do que somos feitos: pó e cinzas. Grandes descobertas sobre si mesmo e sobre a vida são comuns nos relatos dessas caminhadas. Uma teologia forte nasce aí: na pobreza do pó.
Aliás, a ignorância com relação às grandes tradições religiosas é marca de um iluminismo estreito, característico da nossa formação em ciências humanas. Marx, Nietzsche e Freud, apesar de terem posto a teologia de joelhos, apresentam visões simplificadas da religião. Mesmo a literatura de auto-ajuda, esse grande engodo, bebe nesta experiência do deserto para construir suas fórmulas baratas de salvação.
Mas a consciência do deserto pode nos assaltar mesmo em meio a nossa vida cotidiana. Não é necessário irmos a Israel. O envelhecimento é um exemplo. O medo do envelhecimento mostra seus dentes todas as manhãs. Quando olho no espelho pela manhã, e vejo as marcas do tempo no rosto, sou visitado por este fantasma. Ou quando recebo o resultado infeliz de um exame de laboratório.
Hospitais e cemitérios são lugares excepcionais para fazermos filosofia. Imediatamente, é reestabelecida, em minha alma, a consciência do punhado de pó que sou. A cada doença, o pó toma o lugar do corpo. Eis a agonia interna da alma se fazendo presente.
Uma das coisas mais difíceis de se pensar quando vivemos numa cultura excessivamente medrosa como a nossa, viciada na utopia do "humano eficaz", é que outros modos de vida já foram menos covardes. Isso nada tem a ver com "voltar ao passado". Faz parte de nossa cultura o auto-engano porque tememos que a tristeza nos torne menos eficientes.
Imperativos do tipo "seja jovem" excluem grande parte da experiência cotidiana. A imensa maioria das horas se passa entre a insegurança e o medo. Se o seu pai ou a sua mãe sonha em ser "jovem" como você, a fala escondida nesse desejo é: "você meu filho, você minha filha, não tem futuro". A coragem é necessária para sermos gente grande. A "propaganda da juventude" humilha a alma que tem, em sua boca, o gosto do pó todos os dias.
Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo de 06.10.2008. Assinante lê mais aqui .
– NIETZSCHE!
– Saúde.
– Obrigado.
– Tá Marx eim?!
– Tô com uma Adorno corpo danada…
– Cuidado eim, com mosquito da Heidegger.
– Arquimedes que eu tenho de ficar doente…
– Estou brincando.
– Acho que foi o Schopenhaeur de ontem?
– Quânticos?
– Sete, e cinco Pasteur de Bacon.
– Nossa! Fosse eu teria posto os Boff pra fora.
– Sabe como é… Um tira Agostinho aqui outro ali…
– Sei, e acaba no Soren…
– É só uma Wittgenstein.
– Quer um Karl de fruta?
– Zenão, obrigado.
– Você precisa parar com essa mania de Feuerbach todo dia…
– Pascal é o problema?
– A coisa pode ficar Rousseau pro teu lado.
– Que nada… Só preciso tirar uma Sêneca e tudo bem…
– Sartre dessa vida!
– O problema é que eu Goethe tanto de cantar num Karl o que…
– Hannah?
– É isso mesmo… Quem Kant seus Tales espanta.
– Ora, me Popper!
– Vai me dizer que não Goethe de Tomás de Aquino com os amigos?
– Gustav, não Goethe mais.
– Nem Jung golinho?
– Não!
– Max por quê?
– Gustav, até o dia que não pude Voltaire pra casa sem ajuda…
– Isso é Freud mesmo…
– Anaxágoras mudei o Foucault da minha vida.
– É?
– Por isso, Newton nem aí se quiser se acabar, mas não Comte comigo.
– Spinoza senhora! Senti uma Pitágoras de amargura aí…
– Problema Ptolomeu.
– Calma! Einstein com algum problema?
– Desculpe… Ando me sentindo Schleiermacher…
– hum, hum…
– Tenho medo de ficar Sócrates…
– Besteira.
– O médico disse…
– Pode falar, o Kierkegaard que seja…
– O médico disse que estou com… Strauss.
– Puxa! Que nada a ver… Mas não Descartes a possibilidade.
– Platão Confúcio pra mim.
– Hegel a cabeça rapaz!
– Acho que eu é que estou precisando de um Schopenhaeur…
– É assim que se fala! Quer do claro ou Epicuro?
– Epicuro.
– NIETZSCHE!
– Zeus te crie.
– Arendt.
Do blog Verticontes .
Friedrich Nitzsche foi um filósofo alemão que em algum lugar de sua obra disse que ele não tinha medo da solidão, mas da multidão. Provavelmente ele entraria em pânico caso visitasse o Japão, que agora faz muito calor, e quisesse se refrescar em alguma piscina por lá.
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Para Rorty, pensar era um modo particular de viver, e viver era estar atento ao Outro. Era um exercício constante de colocar-se em seu lugar e imaginar o que poderia torná-lo mais livre ou mais submisso, mais feliz ou mais miserável, para, então, decidir o que era humanamente útil, e, conseqüentemente, moralmente verdadeiro. Embora agnóstico, é impossível não escutar em suas palavras e atitudes ecos da fé cristã de Agostinho, que traduzo, com “licença rortyana”, como: “Quem sou eu” e, “Quem eu amo quando amo o Outro”. Embora irônico, e, às vezes, brincalhão e provocador, é impossível não ouvir no que ele disse os rastros da “infinita responsabilidade pelo Outro” de Lévinas. Embora um asceta do pensamento, cuja sobriedade resistia à sedução de quaisquer piruetas conceituais, é impossível não ver o espectro do insaciável desejo de justiça de Derrida, sublinhando, suavemente, tudo o que escreveu. Em suma, o pensamento rortyano é um condensado, um magnífico breviário do que melhor se produziu em matéria de ética no domínio da ética ocidental. E, apesar de ser ele avesso à mitificação ou á mistificação dos grandes nomes da Antigüidade filosófica, não há como deixar de comparar sua obra com o que disse o estóico Sêneca: “Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então, rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação”.
Rorty foi um exemplo de dignidade em forma de vida. Infelizmente, estou certo de que nenhuma gratidão sentida pode estar à altura da dádiva recebida. Resta, então, dizer novamente com Sêneca: “nada nos pertence daquilo que o acaso nos traz”. Mas acrescentar com Freud que fazer o luto dos seres queridos significa guardá-los no coração e na memória para fazê-los viver além da morte. Adeus Rorty. Ou melhor, adeus “Dick”.
Jurandir Freire Costa em um texto em honra da memória do filósofo Richard Rorty. Leia o texto na íntegra aqui .
Acesse aqui uma entrevista imperdível com Luis Eduardo Soares falando sobre a vida e obra do filósofo americano Richard Rorty, morto recentemente. A entrevista me tocou muito pela intimidade com que Soares fala de Rorty e por saber como a vida de Rorty esteve sempre ligada à dimensão da criatividade e imaginação. Um belo exemplo de se fazer filosofia e de como se viver.
Veja também: Morre o filósofo Richard Rorty .
[...] “meu sentido do sagrado está atado à esperança de que algum dia meus remotos descendentes vivam em uma civilização global em que o amor será a única lei”.
Frase do filósofo americano Richard Rorty, citado no seu obituário escrito por Habermas .
Veja também: Morre o filósofo Richard Rorty .