Viver é estar atento ao Outro

17 de julho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ética, filosofia, vida

Para Rorty, pensar era um modo particular de viver, e viver era estar atento ao Outro. Era um exercício constante de colocar-se em seu lugar e imaginar o que poderia torná-lo mais livre ou mais submisso, mais feliz ou mais miserável, para, então, decidir o que era humanamente útil, e, conseqüentemente, moralmente verdadeiro. Embora agnóstico, é impossível não escutar em suas palavras e atitudes ecos da fé cristã de Agostinho, que traduzo, com “licença rortyana”, como: “Quem sou eu” e, “Quem eu amo quando amo o Outro”. Embora irônico, e, às vezes, brincalhão e provocador, é impossível não ouvir no que ele disse os rastros da “infinita responsabilidade pelo Outro” de Lévinas. Embora um asceta do pensamento, cuja sobriedade resistia à sedução de quaisquer piruetas conceituais, é impossível não ver o espectro do insaciável desejo de justiça de Derrida, sublinhando, suavemente, tudo o que escreveu. Em suma, o pensamento rortyano é um condensado, um magnífico breviário do que melhor se produziu em matéria de ética no domínio da ética ocidental. E, apesar de ser ele avesso à mitificação ou á mistificação dos grandes nomes da Antigüidade filosófica, não há como deixar de comparar sua obra com o que disse o estóico Sêneca: “Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então, rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação”.

Rorty foi um exemplo de dignidade em forma de vida. Infelizmente, estou certo de que nenhuma gratidão sentida pode estar à altura da dádiva recebida. Resta, então, dizer novamente com Sêneca: “nada nos pertence daquilo que o acaso nos traz”. Mas acrescentar com Freud que fazer o luto dos seres queridos significa guardá-los no coração e na memória para fazê-los viver além da morte. Adeus Rorty. Ou melhor, adeus “Dick”.

Jurandir Freire Costa em um texto em honra da memória do filósofo Richard Rorty. Leia o texto na íntegra aqui .

Assédio moral e demissão por honestidade

28 de junho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: administracao, ética, empresa

Banco terá de indenizar gerente vítima de perseguição

Trabalhador tem direito de receber indenização por dano moral sempre que atitudes tomadas pelo empregador afetem sua dignidade. Com este entendimento, a 1ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho manteve a decisão que condenou o Banco do Estado do Pará a indenizar um gerente vítima de assédio moral. Segundo o TST, ficou comprovado que o empregado sofreu pressão política por ter se recusado a descontar um cheque irregular da Prefeitura de Marabá (PA).

Na ação, o bancário informou ter trabalhado por 12 anos no Banpará até “ser compelido a aderir ao Plano de Demissão Voluntária”, depois de ter exercido as funções de escriturário, caixa, chefe de serviços, gerente de negócios e gerente de agência. Ele sustentou que foi submetido “a vexatório e prolongado processo demissional” porque ficou afastado de suas funções durante meses até aderir ao PDV.

O motivo da demissão foi o fato de não ter autorizado o pagamento de um cheque da Prefeitura de Marabá porque o prefeito, na ocasião, estava doente e não podia assinar o cheque. Os funcionários da prefeitura falsificaram a assinatura e tentaram receber o pagamento.

O cheque foi descontado por interferência da diretoria do banco e o bancário foi imediatamente afastado de suas funções. Os fatos circularam na imprensa de Marabá e “abalaram a reputação e a moral do empregado”.

Leia a reportagem completa aqui . Via Consultor Jurídico .

Julgamento moral e emoção: comprovação experimental

24 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ética, neurociencia

Emoções e decisões morais

Por Fernando Reinach

A relação entre a moral e as emoções é parte subjacente da trama de grande parte dos romances, filmes e novelas.

Nossas decisões morais são influenciadas por nossas emoções ou seriam as emoções efeitos de nossos conflitos morais? Até recentemente esse tipo de problema pertencia ao campo da filosofia e da psicologia, mas agora neurocientistas estão abordando essas questões experimentalmente.

Imagine que você se defronte com o seguinte problema: um pequeno vagão vem descendo sem controle por um trilho que desemboca em uma bifurcação.

Cabe a você operar um comando que determina se o vagão vai para a direita ou para a esquerda. Se você desviá-lo para a esquerda ele vai atropelar e matar cinco pessoas. Se você desviá-lo para a direita ele vai matar uma única pessoa.

Diante desse dilema moral, a grande maioria das pessoas escolhe a solução do mal menor: desvia o vagão para a direita sacrificando um para salvar cinco.

Imagine agora que o vagão vem descendo a ladeira em direção às cinco pessoas, mas, antes, vai passar por baixo de uma ponte. Você está em cima da ponte e tem de tomar uma decisão. Ou não faz nada e deixa as cinco pessoas morrerem ou agarra uma pessoa que está em cima da ponte e a lança sobre os trilhos para parar o vagão.

Apesar de o número de pessoas mortas ser idêntico em cada opção (cinco mortes ao invés de uma), a grande maioria das pessoas prefere deixar as cinco pessoas morrerem a tomar a atitude de fisicamente jogar uma pessoa inocente nos trilhos e causar sua morte.

Recentemente, esse e outros experimentos do mesmo tipo foram repetidos com pacientes com uma lesão no córtex pré-frontal.

Seis pacientes foram escolhidos pelo fato de terem lesões causadas por tumores ou por derrames em uma região específica do cérebro que, se destruída, reduz a capacidade da pessoa de sentir emoções como empatia, culpa ou vergonha.

Apesar de não sentirem essas emoções, os pacientes tinham capacidade de raciocínio e inteligência normais. O que foi observado é que os pacientes com a lesão tomavam as mesmas decisões que as pessoas normais quando as escolhas morais não envolviam aspectos sentimentais muito próximos ao indivíduo.

Assim, nos exemplos acima, esses pacientes reagiram da mesma maneira que pessoas normais no caso do desvio do vagão.

Ao contrário das pessoas normais, mesmo quando a decisão envolvia pessoas próximas, os pacientes com a lesão tendiam a escolher a opção lógica. No exemplo da ponte, não hesitavam em atirar uma pessoa da ponte para salvar outras cinco.

A conclusão desse estudo é que nossas decisões morais são intrinsecamente dependentes de fatores emocionais, mas que essa influencia só altera o julgamento quando a decisão moral envolve pessoas ou situações muito próximas ao sujeito.

Esse resultado não é inesperado, afinal a própria Justiça reconhece que o julgamento moral das pessoas pode ser bloqueado quando a decisão envolve pessoas ou situações muito próximas a cada um de nós.

O interessante é que, pela primeira vez, se obtém comprovação experimental para essa observação, inclusive com o mapeamento das regiões do cérebro envolvidas nos fenômenos.

Aos poucos a biologia vai explicando fenômenos mentais que antes pareciam exclusividade da filosofia.

Artigo publicado em O Estado de S.Paulo, 24.05.2007 .

Novo livro sobre ética empresarial

16 de fevereiro de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: administracao, ética, empresa

Novo livro sobre ética empresarial Acabou de ser publicado pela DVS Editora o livro “Ética na vida das empresas: depoimentos e experiências”, com a coordenação de Maria do Carmo Whitaker. Participo da obra com um pequeno artigo, que vc pode acessá-lo aqui . Para comprar o livro, acesse aqui . Vale a pensa visitar o site Ética Empresarial , organizado por Maria do Carmo. Segue comentário de Carlos Aurélio Mota de Souza sobre o livro:

Em Ética na Vida das Empresas. Depoimentos e Experiências, a professora e advogada Maria do Carmo Whitaker apresenta-nos entrevistas e ensaios de empresários, dirigentes e professores de administração, economia e jornalismo, para ressaltar o impacto da Ética no mundo dos negócios e analisar a gestão ética, a responsabilidade social, a sustentabilidade das instituições e relevantes temas sobre a vida empresarial.

Como profissional, desenvolve treinamento para incentivo à cultura ética nas organizações, implantação de códigos de ética, criação e funcionamento de comitês de ética, análise de conflitos e desvios de conduta, discussão e reflexão sobre Ética etc., além de ampla divulgação de obras e textos específicos em seu Portal
sobre Ética Empresarial.

Ou a ética ou a política

4 de novembro de 2006 por Mauricio Serafim
Categorias: ética, politica

Sou um daqueles que não ficou contente com a reeleição do Lula. Desde quando comecei a votar acreditei no PT e no seu cadidato à presidência. Achava que o partido tinha um real projeto para o Brasil e que era o único que levava a sério a ilegitimidade da dicotomia entre a ética e a política.

Ou a ética ou a política O que é essa dicotomia? Certos costumes em nossa sociedade não podem ser justificados do ponto de vista ético, embora o façam do ponto de vista econômico ou de manutenção de poder. Há uma separação entre a política e a ética, quando a primeira é vista como a oportunidade de satisfazer desejos e interesses privados e que o poder deve ser mantido a qualquer custo. A famosa aporia “o fim justifica os meios” se encaixa perfeitamente nesse contexto. Dessa forma, é promovido uma dupla moral que rompe a integridade do ser humano, que se sente autorizado a viver, no empenho político partidário, segundo normas diferentes que, em casa, ensinaria aos próprios filhos. Agora, quando adotamos a ética como orientadora de nossa conduta, é indiferente se estamos no partido A, B ou C, se estamos na Igreja, em casa ou na prefeitura, ou se estamos no começo ou no fim de um mandato.

Sempre devemos agir – e esta é uma exigência da ética – levando em conta que meus interesses, simplesmente por serem meus, não podem ser mais importantes que os interesses de outras pessoas. Na esfera privada, esta exigência tem um alcance que se restringe aos nossos familiares e amigos. Contudo, ao adentrarmos na esfera pública (ao assumirmos, por exemplo, cargos como o de prefeito, de secretários municipais ou vereadores) esta exigência é estendida a todos os cidadãos. Dessa forma, os interesses de João da Silva e de um deputado estadual, se forem os mesmos, devem ser tratados igualmente. Aquele que detém um cargo público que assim age, preserva sua integridade e seu caráter, não tendo vergonha de contar para seu filho o modo de vida que leva.

Realmente acreditei que o PT pudesse provar que o dilema exposto no título deste texto fosse falso e que mostraria que a separação entre a ética e a política é uma realidade apenas para aqueles que acreditam no “rouba, mas faz”. Tal dilema deveria ser destituída de seu status de justificativa para que pudéssemos, indignados, dizer “faz, mas rouba!”. Infelizmente isso não aconteceu. O caráter dos muitos que assumiram os cargos e funções do executivo foram revelados. Aliás, como escreveu Sófocles em sua tragédia grega Antígona, datada de 440 A.C., apenas sabemos o real caráter de uma pessoa ou de um grupo quando esta(e) assume o poder. E o que vi me deixou profundamente triste. Não apenas pela corrupção, mas por terem se transformado em contra-exemplo de um governo democrático.

Maurício C. Serafim

Esmola

20 de agosto de 2006 por Mauricio Serafim
Categorias: ética, civismo, comportamento, ensaio, sociedade

Esmola Estava entrando no metrô de São Paulo quando uma senhora, mais ou menos em torno dos 65 anos, pediu uma ajuda. Neguei. Mas antes de passar na catraca, voltei atrás e perguntei para a senhora se a ajuda que ela queria era passar para pegar o trem. Ela respondeu que sim. Perguntei o seu nome e ela me respondeu “Regina”. “E o meu é Mauricio”, disse a ela, que me pareceu não fazer a menor diferença em saber. Quis com isso apenas tentar fazer com que o ato da esmola não fosse impessoal. Mas não consegui. Passei a senhora com o meu passe de metrô, ela não me olhou e se foi. Não fiquei chateado pelo fato de ela não ter me agradecido, mas pelo comentário de um dos funcionários do metrô: “ela é freguesa daqui!”. Me senti frustrado, com aquela sensação de ter sido enganado. Isso me ajudou a pensar algumas coisas.

Independentemente de a senhora ter me engano ou não, me veio o pensamento que a condição socioeconômica de alguém não me autoriza a deduzir qualquer característica moral dela. Entre os pobres existem os oprimidos, mas também opressores em potencial. Existem pobres que usam de sua condição social e enganam pessoas utilizando seus filhos e performances quase que teatrais para ir direto ao nosso sentimento de culpa, mas também existem pessoas que realmente precisam de um ajuda, e que são sinceros ao mostrar suas dificuldades. Numa sociedade desigual como a nossa, uma das coisas que nos iguala é a nossa capacidade de beneficiarmos à custa dos outros, independentemente de nossa classe social. E como resolver isso do ponto de vista pessoal, para não ficarmos apáticos ao sofrimento dos outros? Uma postura que vou adotar será a de conhecer a pessoa que vou ajudar, fazer com que aquela interação não seja impessoal, despersonalizada ou anônima, de maneira que não seja apenas eu a influenciar a vida dela, mas que ela também possa influenciar a minha, tornando-se assim uma relação de paridade e não uma relação hierárquica quando temos alguém que dá uma esmola e uma outra que recebe.

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