TED em português: conferências sobre idéias

16 de outubro de 2008 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, educacao, inovacao, neurociencia, vida

Há um projeto no YouTube de legendar em português as palestras da TED,  conferências que abordam conceitos e idéias em temas variados, como inovação, história de invenções, e funcionamento da mente.

São palestras curtas e muito interessantes. Já assisti algumas dessas palestras e gostei muito. Achei particularmente impressionante a de Jill Taylor, uma neurocientista que conta sua própria experiência de ter um derrame. Assista a primeira parte clicando no ícone abaixo.

 

TED em português: conferências sobre idéias

Via Tiago Dória Weblog.

Criatividade e os dois lados do mesmo cérebro

15 de julho de 2008 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, neurociencia, vida

Por Suzana Herculano-Houzel

Duas semanas atrás, manifestei aqui minha decepção com a falta de originalidade humana na hora de criar extraterrestres para filmes e livros, o que tem suas origens na limitação da nossa capacidade de imaginação pela experiência sensorial do cérebro. Ainda assim, esse cérebro que só propõe mesmices alienígenas é capaz de dar soluções novas a problemas cotidianos. Como?

Ainda por meio da criação de novas combinações dos elementos de que dispomos. Logo vem à cabeça o projeto de objetos inovadores -aviões, máquinas de fazer suco de laranja, iPods. Mas, segundo uma definição prática, isso é apenas um ramo específico da criatividade, nossa capacidade genérica de encontrar novos caminhos entre idéias e conceitos e novos conceitos a partir das mesmas idéias.

A neurociência já se interessou pelo assunto -e mostra como a criatividade depende do esforço conjunto de uma rede de estruturas dos dois lados do cérebro (e não apenas do lado direito, por favor!) que servem cada uma a uma função específica: memória de trabalho, imaginação de ações, significados emocionais complexos, satisfação e, sobretudo, flexibilidade cognitiva: a capacidade de mudar o conjunto de regras em uso no momento.

Na hora de ser criativo com o mundo, o cérebro usa a si mesmo com criatividade: emprega as mesmas estruturas de outras maneiras para olhar uma questão de outro jeito e descobrir um caminho alternativo.

Minha filha, em plena descoberta da semântica aos oito anos, nos oferece uma experiência do processo criativo propondo uma série de charadas. “Por que o Abominável Homem das Neves é azarado?”, pergunta. Imagens de gelo, montanhas e seres enormes vêm à cabeça -nada que ajude a encontrar uma resposta que conecte o Yeti ao azar. Depois de insistirmos em um caminho que não leva a nada, ela dá a resposta: “Porque ele tem pé frio!”.

Rimos, enquanto nosso sistema de recompensa registrava o valor de quebrar as expectativas, abandonar o caminho tradicional, mais fácil, e ver a mesma informação de outra perspectiva, usando um conjunto diferente de regras.

A ativação do sistema de recompensa com a quebra de expectativa, base do humor, não só torna o processo criativo prazeroso como nos faz querer mais dele. Deixo, então, um convite para você usar sua flexibilidade cognitiva e responder: por que o macaco-prego não gosta de entrar no mar? Não é porque ele enferruja…

Suzana Herculano-Houzel, neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro “Fique de Bem com o Seu Cérebro” (Editora Sextante) e do site O Cérebro Nosso de Cada Dia (http://www.cerebronosso.bio.br). Artigo publicado na “Folha de SP”. Acese aqui.

Criatividade e neurociência

19 de junho de 2008 por Mauricio Serafim
Categorias: neurociencia, vida

O que, afinal, a neurociência pode dizer sobre o processo de inovação?

Por Suzana Herculano-Houzel

Um dos lados divertidos de ser neurocientista de plantão são os convites para falar para públicos diferentes, e na semana passada lá fui eu falar no workshop de inovação de uma empresa de perfumes e cosméticos. O tema? Criatividade. Ótima chance para usar meu lado criativo e montar uma palestra diferente das habituais -mas não sem antes uma hesitação: o que, afinal, a neurociência pode dizer sobre o processo de inovação?

Muita coisa. A começar pela falta de originalidade: você já notou que, nos filmes de ficção científica, os alienígenas são sempre variações sobre humanos, répteis, polvos e outros bichos com tentáculos ou seres amorfos, como amebas? Na melhor das hipóteses, os criadores apelam para seres invisíveis que dominam seres humanos. Por que tanta falta de criatividade?

No final dos anos 1990, quando se tornou possível acompanhar a atividade cerebral em voluntários acordados e saudáveis, o neurocientista inglês Stephen Kosslyn mostrou que a imaginação -a capacidade de visualizar mentalmente o que não está acessível aos olhos ou a outros sentidos- usa as mesmas partes do cérebro que recebem informações dos sentidos.

Acontece que, desde os anos 1970, sabemos que os sentidos dependem de experiência para se firmarem no cérebro. Daí, por exemplo, a importância de corrigir o estrabismo cedo: se o cérebro não tiver experiência com imagens convergentes dos dois olhos ao mesmo tempo, ele não aprende a enxergar profundidade e pode acabar praticamente cego para um dos olhos.

O mesmo vale para sons, cheiros e imagens que não vemos nunca: o cérebro não aprende a percebê-los. Um cérebro que nunca viu movimento, por exemplo, não sabe o que fazer com isso. E um que nunca viu araras ou ultravioleta não sabe imaginar o que é uma arara ou a cor do ultravioleta. Se a imaginação depende dos sentidos e os sentidos, de experiência, então a imaginação depende de experiência.

A boa notícia é que a experiência que nos limita a criatividade é algo que se adquire, podendo ser desenvolvida. Quanto mais ricas em variedade forem nossas experiências sensoriais, mais elementos teremos para combinar de maneiras inusitadas e criativas. A má notícia é que, se somos limitados pela experiência, posso abandonar minhas esperanças de um dia ver um extraterrestre realmente diferente nos filmes -enquanto um de verdade não vier à Terra…

Suzana Herculano-Houzel, neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro “Fique de Bem com o Seu Cérebro” (Editora Sextante) e do site O Cérebro Nosso de Cada Dia (http://www.cerebronosso.bio.br). Artigo publicado na “Folha de SP” (19/6/2008). Via Jornal da Ciência.

Neurociência do amor

20 de dezembro de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: neurociencia, vida
Dar apoio moral é uma grande demonstração de amor, crucial para manter saudável a resposta ao estresse de quem o recebe. Mas dar carinho a quem se ama é a mais inequívoca demonstração de amor, tão importante que conta com um sistema de nervos específico para detectá-la. Por isso, não basta amar; é preciso fazer o outro se sentir amado.
Trecho do texto de Suzana Herculano-Houzel na Folha de S.Paulo a respeito de algumas descobertas da neurociência sobre o amor (assinantes acessam aqui).

Experiência fora do corpo é reproduzida em laboratório

24 de agosto de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, neurociencia, reportagem, tecnologia

Experiência fora do corpo é reproduzida em laboratórioVia Agência FAPESP – Com o uso de realidade virtual para misturar sinais sensoriais que chegam ao cérebro, cientistas europeus induziram voluntários a experiências extracorpóreas, sugerindo uma explicação científica para o fenômeno normalmente considerado produto de ilusão ou de ficção.

A visão de seus corpos transferidos para outro local – graças ao equipamento – associada à sensação de serem tocados simultaneamente fez com que voluntários sentissem que estavam se movendo fora de seu corpo físico, de acordo com dois artigos publicados na edição desta sexta-feira (24/8) da revista Science.

Uma desconexão entre os circuitos cerebrais que processam esse tipo de informação sensorial pode ser responsável por algumas das experiências extracorpóreas, segundo os autores.

[...] Para os pesquisadores, casos que envolvem a sensação de sair do corpo e vê-lo a partir de uma perspectiva externa podem estar relacionados, em parte, com o uso de drogas, ataques epiléticos e outros tipos de distúrbios cerebrais.

Ao projetar a consciência de uma pessoa em um corpo virtual, as técnicas utilizadas nesses estudos poderiam, segundo os autores dos estudos, ser úteis para treinamento em delicadas tarefas de “teleoperação”, como a realização remota de cirurgias.

As conclusões das pesquisas também poderiam ajudar a eliminar o estigma imputado a pacientes de distúrbios neurológicos que têm essas experiências, freqüentemente atribuídas a uma imaginação ativa ou a algum tipo de fenômeno paranormal. De acordo com os pesquisadores, os estudos têm potencial de ajudar a resolver antigas questões sobre como o ser humano percebe seu próprio corpo.

Leia o artigo na íntegra aqui.

Riso e sociedade

12 de agosto de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, neurociencia, sociedade, sociologia

Neurocientistas da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, descobriram que a risada tem pouco a ver com senso de humor e é, na verdade, uma ferramenta de instinto de sobrevivência para animais que convivem em sociedade. Há séculos, teóricos como Platão. Aristóteles, Kant e Freud tentaram explicar o riso baseados na premissa errada de que eles estariam explicando também o que seria o humor.

[...] O estudo também mostrou que a maioria das pessoas (principalmente as mulheres) riem mais enquanto conversam do que os outros que lhe ouvem, usando as risadas como um tipo de pontuação para suas sentenças. É um processo em grande parte involuntário. As pessoas podem conter o riso, mas poucos conseguem forçar o riso de forma convincente.

Portanto, os pesquisadores concluiram que o ato de rir é um dos sinais sociais mais honestos porque é difícil de ser fingido. Ele é uma espécie de fóssil do comportamento, que evidencia as raizes que todos os seres humanos, e talvez todos os mamíferos, têm em comum. A risada primitiva, então, evoluiu como um dispositivo sinalizador com a função de destacar a compreensão de interação amigável entre duas pessoas.

Os humanos começam a rir aos quatro meses e depois progridem das cócegas para mecanismos mais sofisticados, como piadas. O riso pode ser usado para reforçar os laços de solidariedade e identidade de um grupo, ao satirizarem e isultarem pessoas de fora da unidade, mas é sobretudo um “lubrificante” social. É uma maneira de fazer amigos e também de deixar claro quem pertence a quais posições na hierarquia do status social.

Via revista Galileu. Acesse o texto na íntegra aqui.

Altruísmo vigiado

28 de julho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, neurociencia, reportagem, sociedade, ética

[...] Nos nossos comportamentos mais cotidianos, o olhar do outro e a percepção que nós temos dele desempenham um papel determinante. Este aspecto é evidenciado por um estudo realizado por dois pesquisadores alemães, Manfred Milinski (do Instituto Max-Planck de Plön) e Bettina Rockenbach (da Universidade de Erfurt), publicado na edição de 27 de julho da revista “Science”.

A partir da combinação de experiências que foram inspiradas nos estudos do comportamento animal, na sociologia e nas neurociências, os autores concluem que o fato de se saber observado conduz a se mostrar mais altruísta. Com isso, o desenho de um par de olhos sobre uma caixa para gorjetas incita os fregueses de uma cafeteria a darem mais dinheiro do que diante da representação de uma flor.

Uma tão grande interferência de um olhar exterior decorre de bases biológicas, situadas numa região do cérebro, o sulco temporal superior, da qual as representações imagéticas cerebrais mostram que ela é mobilizada pelo reconhecimento dos olhos de um vis-à-vis, nas situações de comunicação social. A resposta do córtex é particularmente pronunciada em presença apenas dos olhos, isolados do restante do rosto. Uma experimentação revela que a simples imagem de um par de olhos estilizados, quando reproduzida na tela de um computador, é suficiente para modificar o comportamento do seu usuário. [...]

[...] Em última instância, o observador pode decidir que o altruísmo do observado, mesmo que simulado, é benéfico. Talvez seja esta a explicação, conforme sugerem os autores, dos totens que foram erguidos por certas civilizações, nos quais olhos onividentes vigiam, zelando para que cada indivíduo dê mostras – com sinceridade ou duplicidade – de um comportamento desinteressado proveitoso para a comunidade.

Da reportagem “O altruísta, o olho e o totem”, publicado no Le Monde e no UOL. Leia a versão na íntegra em português aqui (apenas para assinantes).

Julgamento moral e emoção: comprovação experimental

24 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: neurociencia, ética

Emoções e decisões morais

Por Fernando Reinach

A relação entre a moral e as emoções é parte subjacente da trama de grande parte dos romances, filmes e novelas.

Nossas decisões morais são influenciadas por nossas emoções ou seriam as emoções efeitos de nossos conflitos morais? Até recentemente esse tipo de problema pertencia ao campo da filosofia e da psicologia, mas agora neurocientistas estão abordando essas questões experimentalmente.

Imagine que você se defronte com o seguinte problema: um pequeno vagão vem descendo sem controle por um trilho que desemboca em uma bifurcação.

Cabe a você operar um comando que determina se o vagão vai para a direita ou para a esquerda. Se você desviá-lo para a esquerda ele vai atropelar e matar cinco pessoas. Se você desviá-lo para a direita ele vai matar uma única pessoa.

Diante desse dilema moral, a grande maioria das pessoas escolhe a solução do mal menor: desvia o vagão para a direita sacrificando um para salvar cinco.

Imagine agora que o vagão vem descendo a ladeira em direção às cinco pessoas, mas, antes, vai passar por baixo de uma ponte. Você está em cima da ponte e tem de tomar uma decisão. Ou não faz nada e deixa as cinco pessoas morrerem ou agarra uma pessoa que está em cima da ponte e a lança sobre os trilhos para parar o vagão.

Apesar de o número de pessoas mortas ser idêntico em cada opção (cinco mortes ao invés de uma), a grande maioria das pessoas prefere deixar as cinco pessoas morrerem a tomar a atitude de fisicamente jogar uma pessoa inocente nos trilhos e causar sua morte.

Recentemente, esse e outros experimentos do mesmo tipo foram repetidos com pacientes com uma lesão no córtex pré-frontal.

Seis pacientes foram escolhidos pelo fato de terem lesões causadas por tumores ou por derrames em uma região específica do cérebro que, se destruída, reduz a capacidade da pessoa de sentir emoções como empatia, culpa ou vergonha.

Apesar de não sentirem essas emoções, os pacientes tinham capacidade de raciocínio e inteligência normais. O que foi observado é que os pacientes com a lesão tomavam as mesmas decisões que as pessoas normais quando as escolhas morais não envolviam aspectos sentimentais muito próximos ao indivíduo.

Assim, nos exemplos acima, esses pacientes reagiram da mesma maneira que pessoas normais no caso do desvio do vagão.

Ao contrário das pessoas normais, mesmo quando a decisão envolvia pessoas próximas, os pacientes com a lesão tendiam a escolher a opção lógica. No exemplo da ponte, não hesitavam em atirar uma pessoa da ponte para salvar outras cinco.

A conclusão desse estudo é que nossas decisões morais são intrinsecamente dependentes de fatores emocionais, mas que essa influencia só altera o julgamento quando a decisão moral envolve pessoas ou situações muito próximas ao sujeito.

Esse resultado não é inesperado, afinal a própria Justiça reconhece que o julgamento moral das pessoas pode ser bloqueado quando a decisão envolve pessoas ou situações muito próximas a cada um de nós.

O interessante é que, pela primeira vez, se obtém comprovação experimental para essa observação, inclusive com o mapeamento das regiões do cérebro envolvidas nos fenômenos.

Aos poucos a biologia vai explicando fenômenos mentais que antes pareciam exclusividade da filosofia.

Artigo publicado em O Estado de S.Paulo, 24.05.2007.

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