Solidariedade Zero
Categorias: ética, politica, vida
[...] Tchekhov, no conto Angústia, narra a triste solidão de um cocheiro que, tendo perdido o filho, não encontra nenhum ouvido disposto a escutá-lo. “Logo vai fazer uma semana que o filho morreu – diz o narrador – e ele ainda não conversou direito com ninguém… É preciso conversar com vagar, com calma… É preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, como morreu. É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospital para buscar a roupa do defunto.”
Familiares e amigos dos passageiros e tripulantes do Airbus-A320 sentem-se como o cocheiro de Tchekhov em se tratando de nossas autoridades públicas. O cocheiro encontrou o consolo de, afinal, desabafar com a égua que lhe movia a carroça. Mas nossas autoridades, à exceção do governador paulista e do prefeito da capital, não compareceram aos hotéis em que os familiares se hospedam em São Paulo, nem às celebrações litúrgicas, nem ao enterro de corpos identificados. Ainda que o fizessem, seria um consolo? Jamais. Porém, seria um gesto de grandeza cívica, de quem representa a nação e, em nome dela, sabe irmanar-se na dor, assim como não perde a oportunidade de irmanar-se na alegria.
E seria um gesto de que a tragédia do dia 17 de julho não se reduz a mero acidente que exime os órgãos públicos de qualquer responsabilidade. Quando o poder se coloca ao lado das vítimas, ele aprende a mudar seu modo de proceder. E se humaniza.
Frei Betto , texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 27/07/2007. Via Pavablog .


