Sobre Ronaldo e hienas
Categorias: ética, sociedade
[...] Excetuando o consumo de drogas, que não foi provado, encontramos um homem adulto que, depois de uma noite de farra, resolveu solicitar os serviços de profissionais. A indignação e as risadas de jornalistas ou leitores, que subitamente descobriram o inquisidor moralista que vivia dentro deles, ignoram o aspecto mais rasteiro do “problema”: contratar prostitutas não tem qualquer história ou moral. E muito menos comentário: não existe um único jornalista ou leitor que, ao pensar na sua vida sexual, e sobretudo na história da sua vida sexual, não encontre motivos de pudor ou vergonha. Sempre que vejo uma hiena a gritar ou a rir da intimidade alheia, sei instintivamente que a hiena não ri dos outros; aproveita-se dos outros para descomprimir as suas próprias taras, culpas ou frustrações.
[...] O espírito do nosso tempo oscila continuamente entre a libertinagem mais artificial e o moralismo mais artificial. São atitudes gêmeas porque são duas formas de fundamentalismo. E o mundo, aos olhos do fundamentalista, é todo preto-e-branco. Só as hienas acreditam nesse mundo. E só as hienas passam por ele a rir ou a gritar, enquanto se alimentam com os detritos dos outros.
Texto inusitado e lúcido sobre o caso Ronaldo de João Pereira Coutinho .



Reflexão lúcida, bem humana. Acompanho.