Politização da ciência

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A leitura do livro Manual Politicamente Incorreto da Ciência, do escritor, ensaísta e editor inglês Tom Bethell, expõe, de modo erudito e contundente, a nossa ingenuidade em acreditar – de uma forma não científica – na ciência, tal como nos chega pelos meios de comunicação. Ele usa o raciocínio lógico-científico, evidências e outros trabalhos científicos para questionar – na melhor maneira de se fazer ciência – vários mitos que não possuem anteparos suficientes para serem declarados definitivos.

manual cienciaUm exemplo é o aquecimento global: quem o questiona é tido como ignorante ou coisa pior. Porém, ele é apenas uma hipótese com muitos problemas e possui uma clara vertente política. Uma comunidade científica sadia e digna desse nome deveria estar aberta para outras hipóteses e evidências, mas está claramente fechada para questionamentos com respeito a esse assunto, colocando o aquecimento global num patamar dogmático, inquestionável, sem a mínima chance de explicações alternativas virem à tona (é uma “hipótese disfarçada de fato”, como disse Bethell). O problema disso tudo é que, dessa forma, o mais elementar das características da ciência é esquecido ou ignorado: toda e qualquer tese ou hipótese deve estar aberta à refutação. Bethell apresenta vários estudos de outros cientistas que colocam em dúvida – e até mesmo a impossibilidade – de estar havendo aquecimento global antropogênico. Porém, tais pesquisas não encontram a ressonância necessária nos meios de comunicação, dando a falsa sensação de consenso na comunidade científica. Gostaria de enfatizar um ponto: o principal problema não é se a tese do aquecimento global seja verdadeira ou não, mas a forma como é conduzida esta questão: é proibido questioná-la, evidências e pesquisas contrárias que são colocadas à mesa são ridicularizadas, e os editores de revistas e sites especializados não dão espaço para divergências. Em suma, atitudes não científicas são usadas para sustentar uma hipótese pretensamente científica.

Importante dizer que Bethell não questiona a ciência em si, mas a forma como hoje ela está articulada com a política e os meios de comunicação e a força resultante disso. Ele mostra como essa relação espúria entre certos cientistas, a política (com ênfase nas fontes federais de financiamento) e os meios de comunicação deturpam ideias e resultados, favorecendo certas abordagens ou estratégias de pesquisa, em detrimento de outras. Quando determinado assunto entra neste rol, não há mais a preocupação com a verdade “doa a quem doer”, mas com a manutenção do prestígio profissional e financiamento para pesquisas. Esse comportamento pode levar ao enfraquecimento ou perda da honestidade intelectual e ao relaxamento da integridade do método científico, gerando o fenômeno do aumento das fraudes científicas.

O ponto central do autor – que permeia o livro – é o que ele chama de politização da ciência. Ele não explicita nestes termos, mas podemos interpretá-la de duas maneiras. A primeira é o uso de táticas político-ideológicas no campo científico. O “espírito de grupo” é mais importante que o “espírito científico”: isolar desafetos, homenagear os fiéis ao grupo, não estar disposto a discutir os fatos e evidências, mas buscar desacreditar o colega divergente com ataques as suas crenças de valor ou religiosas, enfim, não há espaço nem disposição para um debate racional, mas sim de “ganhar a discussão” de qualquer forma. Uma boa leitura para se entender mais a fundo esse aspecto é o artigo On Readiness to Rational Discussion, de Eric Voegelin.

A segunda maneira de politização da ciência é o entrelaçamento cada vez maior de cientistas com fundos governamentais de financiamento (isso nos EUA, no Brasil a realidade é a completa dependência do Estado para se fazer pesquisa). Um bom exemplo é a pesquisa com células-tronco. Pouca gente sabe: essa pesquisa é totalmente permitida nos EUA, desde que seja com dinheiro privado. Há algumas restrições para essa pesquisa apenas para o caso de financiamento federal. A luta de alguns laboratórios e cientistas é, portanto, por financiamento estatal de suas pesquisas, não para a permissão de pesquisar células-tronco. Da maneira como é exposta nos meios de comunicação, a impressão é que o governo proíbe pesquisas de células-tronco. Mas a verdade é que alguns cientistas estão pressionando o governo por dinheiro ou facilidades estatais, na melhor estratégia rent-seeking.

Bethell termina seu livro com um parágrafo categórico: “Enquanto igualarmos tão acriticamente financiamento da ciência com financiamento governamental”, os resultados prometidos pela ciência dificilmente virão. “Governos não podem fazer ciência. Isso era verdade na União Soviética e é verdade também nos EUA”. Claro, é impossível não pensar também no Brasil.

 

By | 2017-07-24T18:01:35+00:00 24/julho/2017|ciencia, politica|