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Não foi muito fácil entrar no estádio. Viagem durante a madrugada, a empresa de excursão que nos levou havia prometido uma parada para o café da manhã e não a fez, duas horas na fila aguardando abrir os guichês para pegar o ingresso, e a partir das três da tarde – sob um sol escaldante nos seus 36 graus centígrados de calor – à espera na fila quilométrica da abertura dos portões às 17h30. Nestas horas estar em grupo é fundamental para espantar o cansaço e rir da situação. Entramos e foram mais três horas para o início do show, disputando (de uma forma bem amigável) uma pequena área do gramado.
Mas valeu muito a pena (o sentido literal de ‘pena’ como ‘sofrimento’ cabe bem). A dor nas costas de ficar tanto tempo em pés já cansados foram insignificantes quando Paul entrou e a emoção tomou conta de todo mundo. Foram 34 músicas nas três horas de apresentação que nos levaram das lágrimas aos berros rock ‘n’ roll . A performance dele e de sua banda foram incríveis (e ele já tem 68 anos). Mesmo pessoas que não conheciam muito bem Paul e os Beatles ficaram impactados com o ótima clima que se criou naquele estádio.
E isso me fez pensar na trajetória dos Beatles: filhos de pais proletários, saíram de uma cidade quase insignificante como Liverpool e, sem conhecer teoria musical, influenciaram e ainda influenciam o mundo da música e a vida de milhões de pessoas. E, especialmente Paul, que ao continuar sua carreira após o fim dos Beatles, construiu uma impressionante obra de dezenas de álbuns – que incluiu um de música clássica -, centenas de shows e envolvimento em várias causas humanitárias.
Assistindo e imergindo no show entendi que uma verdadeira revolução não se faz silenciando pessoas – matando-as ou prendendo-as por pensarem diferentemente - mas fazendo-as cantar. Os Beatles e Paul fizerem uma revolução estética que mudou o mundo e para melhor, porque o deixou mais bonito. Ao invés de impor qualquer coisa – como geralmente agem muitas pessoas que se consideram estandartes da mudança ou da ‘transformação’ – eles ofereceram a beleza de suas melodias. Apenas ofereceram, como um presente.
Voltei desse show com a sensação de dever cumprido comigo mesmo por ter me permitido sentir que eu fazia parte (mínima, mas mesmo assim) dessa revolução. Obrigado, Paul!


