Ou a ética ou a política
Categorias: politica, ética
Sou um daqueles que não ficou contente com a reeleição do Lula. Desde quando comecei a votar acreditei no PT e no seu cadidato à presidência. Achava que o partido tinha um real projeto para o Brasil e que era o único que levava a sério a ilegitimidade da dicotomia entre a ética e a política.
O que é essa dicotomia? Certos costumes em nossa sociedade não podem ser justificados do ponto de vista ético, embora o façam do ponto de vista econômico ou de manutenção de poder. Há uma separação entre a política e a ética, quando a primeira é vista como a oportunidade de satisfazer desejos e interesses privados e que o poder deve ser mantido a qualquer custo. A famosa aporia “o fim justifica os meios” se encaixa perfeitamente nesse contexto. Dessa forma, é promovido uma dupla moral que rompe a integridade do ser humano, que se sente autorizado a viver, no empenho político partidário, segundo normas diferentes que, em casa, ensinaria aos próprios filhos. Agora, quando adotamos a ética como orientadora de nossa conduta, é indiferente se estamos no partido A, B ou C, se estamos na Igreja, em casa ou na prefeitura, ou se estamos no começo ou no fim de um mandato.
Sempre devemos agir – e esta é uma exigência da ética – levando em conta que meus interesses, simplesmente por serem meus, não podem ser mais importantes que os interesses de outras pessoas. Na esfera privada, esta exigência tem um alcance que se restringe aos nossos familiares e amigos. Contudo, ao adentrarmos na esfera pública (ao assumirmos, por exemplo, cargos como o de prefeito, de secretários municipais ou vereadores) esta exigência é estendida a todos os cidadãos. Dessa forma, os interesses de João da Silva e de um deputado estadual, se forem os mesmos, devem ser tratados igualmente. Aquele que detém um cargo público que assim age, preserva sua integridade e seu caráter, não tendo vergonha de contar para seu filho o modo de vida que leva.
Realmente acreditei que o PT pudesse provar que o dilema exposto no título deste texto fosse falso e que mostraria que a separação entre a ética e a política é uma realidade apenas para aqueles que acreditam no “rouba, mas faz”. Tal dilema deveria ser destituída de seu status de justificativa para que pudéssemos, indignados, dizer “faz, mas rouba!”. Infelizmente isso não aconteceu. O caráter dos muitos que assumiram os cargos e funções do executivo foram revelados. Aliás, como escreveu Sófocles em sua tragédia grega Antígona, datada de 440 A.C., apenas sabemos o real caráter de uma pessoa ou de um grupo quando esta(e) assume o poder. E o que vi me deixou profundamente triste. Não apenas pela corrupção, mas por terem se transformado em contra-exemplo de um governo democrático.
Maurício C. Serafim
