Mundo real
Categorias: religiao, sociedade, vida
Li no ótimo Pavablog o seguinte trecho de um texto de Frei Betto:
Para nós, que vivemos no Brasil, o shopping center é algo mais do que na Europa e nos Estados Unidos. É onde os pobres desaparecem da paisagem; não há mendigos, não há crianças de rua, não há pedintes, ou seja, é onde faço de conta que a minha realidade não existe. Costumo dizer que o principal produto que o shopping center oferece é gratuito: a ilusão de que vivo numa sociedade ideal, onde todos os bens estão ao alcance da mão e ninguém está privado dessa possibilidade que eu não vejo a multidão de pobres.
Tenho respeito pela trajetória de Frei Betto e li alguns de seus livros, que foram importantes para minha formação. Mas depois de um tempo comecei a me incomodar por ele se tornar repetitivo, mas, principalmente, pela sua imparcialidade, principalmente ao tratar da classe média, descrevendo-a e criticando-a de uma maneira, a meu ver, bastante injusta.
Eu não sei ao certo o que ele chama de pobres, mas ele se engana ao afirmar que o shopping center vende a ilusão de uma sociedade ideal. O que vejo são famílias, muitas notoriamente sem recursos financeiros abundantes, que levam suas crianças para a praça de alimentação e para se entreterem durante um curto espaço de tempo. Eles não estão fugindo dos mendigos, dos pedintes, das crianças de ruas, mas da violência, do trânsito caótico, enfim, buscam um pouco de segurança, um pouco de tranqüilidade perdida das ruas das cidades brasileiras. As pessoas buscam apenas “um pouco” do que não encontram no espaço público. Os shoppings são um espaço onde as leis devem ser cumpridas rigorosamente e, por ironia, o civismo é exercido. As pessoas são geralmente bem atendidas, seus direitos de consumidor são exercidos, e as coisas funcionam bem: as escadas rolantes, os lugares não possuem lixo no chão, os guardas prestativos dão informações e são geralmente gentis, e os banheiros – que qualquer pessoa pode usar – são geralmente muito limpos.
O que as pessoas no Brasil buscam nos shoppings não é uma sociedade ideal, como afirma Frei Betto, mas um mundo real no qual se pode ter um pouco de civilidade e respeito.


