Miscigenação (3)
Categorias: ciencia, politica, sociedade
A insustentabilidade científica das cotas raciais
Quando a UnB decidiu que uma comissão deveria avaliar a raça dos vestibulandos examinando uma foto, qualquer geneticista poderia prever o vexame que estava por acontecer. Do ponto de vista científico, o método é ridículo – para dizer o mínimo.
Utiliza a opinião subjetiva de um grupo de pessoas (a comissão) para, por meio de um método indireto (olhar a foto), avaliar um indicador indireto (o fenótipo) de características hereditárias (o genótipo). Tudo isso para classificar pessoas de acordo com um conceito de valor científico questionável (raça).
Dadas essas condições, era mais que previsível que a comissão, mais cedo ou mais tarde, “errasse”. O que causa estranheza é que o departamento de genética da UnB não tenha pedido demissão em massa.
Também é fácil entender por que as “personalidades negras” se surpreenderam com a análise de seu genótipo. A maioria das pessoas decide a que “raça” pertence ao se olhar no espelho e observar seu próprio fenótipo.
Essa imagem mental é comparada com os dados culturais que a pessoa recebeu durante a vida (por exemplo, a crença em que Ronaldinho é branco e Pelé é negro), e resulta na associação da auto-imagem a uma dita raça. A pessoa então informa sua “raça” ao IBGE, que compila os dados e determina sua distribuição no Brasil.
Dada a natureza completamente subjetiva dessa metodologia, que passa longe do genótipo, não é de se estranhar que a auto-imagem de nossas celebridades não coincida com os dados obtidos diretamente de seus genes.
A realidade é que pessoas de diversas partes do mundo migraram para o Brasil nos últimos 500 anos e a maioria, acreditando que não existe pecado no sul do equador, misturou seus genes com as populações que estavam no país. O resultado é a diversidade que podemos observar nas ruas.
Tentar distinguir e segregar em grupos o que hoje é um contínuo só estimula o racismo e a discriminação. Qualquer sistema de cotas nas universidades públicas deveria ser baseado na condição socioeconômica dos candidatos, jamais em seu genótipo ou fenótipo.
Fernando Reinach, artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 7.6.2007. Para lê-lo na íntegra, acesse aqui .


