A difícil tarefa de ser autêntico

29 de junho de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: academia, vida

Para sermos autênticos em relação à vida precisamos, urgentemente, abrir mão dos conceitos e darmos mais valor às experiências. Os conceitos são fechados em si mesmos e repetitivos, já as experiências se recriam e possibilitam novas interpretações. Sempre que eu crio um conceito em torno de uma idéia, de uma situação ou de uma pessoa, eu fecho as portas para novas conexões e inspirações. A vida está em eterno movimento e nós também estamos. Ser verdadeiro é não limitar, mas expandir; é perceber que tudo é mutável, inclusive as relações e os seres humanos. Nisso entra a possibilidade do perdão e do recomeço, assim como a aceitação de que os ciclos se fecham e se findam.

[...] Ser genuíno também consiste em respeitar as vontades e preferências alheias e não se sentir agredido pelo que é diferente, é enxergar beleza no incomum. Eu não me refiro a ser tolerante em relação às diferenças, pois isso ainda transpira uma relação de desigualdade, de um superior aceitando o inferior, isso seria apenas uma concessão. Refiro-me a amar o outro pelo que ele é! Sabemos que estamos nos transformando em pessoas plenas quando não temos a pretensão de mudar os demais, quando mergulhamos no insight de que a nossa missão existencial é em relação a nós mesmos.

Trecho do ótimo artigo de Lígia Guerra. E o que isso tem a ver com ciência, universidade, essas coisas? Acredito que para sermos bons estudantes, professores e pesquisadores temos que ser, antes de tudo, pessoas melhores. E para isso, temos que ter mais experiências do que conceitos, amar mais do que tolerar, ser autênticos mais do que seguir a multidão, rebelar-se mais do que querer revolucionar. E talvez isso seja a coisa mais difícil e gratificante que podemos fazer.

A beleza da correria

28 de junho de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: em_geral

A beleza da correria

Estava reclamando um pouco da correria da vida e dos afazeres acadêmicos para a minha amiga Licia e ela me enviou este desenho. Ele se pergunta “o sentido… diga-me que sentido pode haver em tudo isso?” A resposta é uma das bonitas que se poderia dar :-)

Hoje acordei nietzschiano

7 de junho de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: filosofia

Odeio quem me rouba a solidão sem me oferecer verdadeira companhia.

A melhor maneira de superar-se é enfrentar-se.

Felicidade é uma viagem, não um destino. Quem tem um porquê viver, encontrará, quase sempre o como.

É preciso ter um caos dentro de si para dar a luz a uma estrela brilhante.

Friedrich Nietzsche (1844-1900).

Via Frases Curtas.

Os bons morrem jovens

27 de março de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: musica, vida

Hoje é o aniversário de 50 anos de Renato Russo. Ele foi cedo demais.

Vida em pílulas

27 de março de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: arte, vida

Vida em pílulas

Via Robona.

Dia Internacional da Mulher (2)

8 de março de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: sociedade, vida

Escrevi o artigo abaixo já faz algum tempo e publiquei-o neste blog no dia 07 de março de 2008. Bem ao estilo “vale a pena postar de novo”, segue novamente o texto. Agradeço a Sabrina pelo incentivo.

Há uma frase do pensador alemão Karl Marx que gostaria de citar para começar este artigo: “a liberdade da mulher é condição fundamental para a libertação de toda a humanidade”. No dia 08 de março se comemora o Dia Internacional da Mulher. Poderia ser um dia muito especial se a maioria das pessoas soubesse a origem desta data, longe de ser apenas mais um dia para ser dada uma lembrança, um presente, ou um “parabéns”. Por isso, penso que seria importante refletir um pouco sobre o que ele significa.

O humano, em seu sentido lato, é a convergência do feminino e do masculino, concretizado na mulher e no homem. Na história da humanidade, o que prevaleceu não foi o humano, mas parte dele que arroga ser o holos, a totalidade. Esta é a arrogância do macho em querer universalizar valores e condutas muito particulares, relegando à sombra a outra: o feminino. A dicotonomia masculino/feminino foi concretizada socialmente na dicotomia homem/mulher. Dessa forma, a mulher foi vista ao longo da história, por exemplo, como parte da propriedade (Grécia Antiga), como potencial manifestação do demônio (Idade Média), incapaz de escolher representantes políticos (Brasil até 1932) e objeto de consumo para satisfação sexual do homem (dias atuais).

O século XX teve o importante papel de ser um momento histórico no qual a mulher lutou por melhores condições de trabalho e por direitos políticos similares aos do homem. Devido a essa luta, na qual mulheres foram duramente repreendidas, foi criado o dia Internacional da Mulher. A versão mais mencionada sobre a origem desse dia é a data de 08 de março de 1908. Nesse dia, 129 operárias têxteis de Nova York entraram em greve por aumento de salários, redução da jornada de trabalho de 16 para oito horas diárias, e licença maternidade. Apesar de todo o esforço, as trabalhadoras não foram atendidas em suas solicitações. Para reprimir as grevistas, as forças policiais e os patrões atearam fogo na fábrica, após trancarem as portas, e as operárias morreram queimadas no interior da empresa, onde estavam concentradas. O Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente a partir de 1922.

Portanto, 08 de março é um dia de reflexões políticas (em seu sentido amplo) sob a atual condição da mulher em nossa sociedade. Um dia em que as reflexões acerca das lutas da ampliação de sua liberdade deveriam ser o cerne, e não uma mera bajulação que normalmente acontece. Se hoje mulheres possuem direitos, tais como a licença maternidade, estudar e trabalhar, e mesmo decidir ser mães solteiras sem o estigma do moralismo, é porque outras mulheres lutaram corajosamente, oferecendo muitas vezes a própria vida. E acredito que, por elas, se deveria ter mais respeito, relembrando seus feitos, suas derrotas e, principalmente, continuar seu legado de inquietação perante um horizonte estreito de liberdade. Por favor, mulheres, não transformem (e não deixem os homens transformarem) esse dia em mais um capítulo daqueles livros estilo Júlia.

Privacidade

22 de fevereiro de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: comportamento, cultura, religiao, sociedade

Não se iludam. A privacidade, a existência de um espaço meu e dos meus, onde a multidão não entra, é talvez a maior conquista da civilização judaico-cristã. Destruir essa barreira sempre foi e sempre será o princípio da tirania.

A sempre provocativa pensata de João Pereira Coutinho. Leia-a na íntegra aqui.

Além da luz e da sombra – Jean-Yves Leloup

14 de fevereiro de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: cultura, vida

Tornar-se adulto é passar da idade dos contrários para a idade do complementar, para um outro modo de olhar as coisas. Se alguém diz algo contrário ao que penso e sou capaz de entender esse contrário como complementar, vou crescer em consciência e em compreensão. Se em vez de rejeitar ou negar alguns elementos de minha vida obscura, sou capaz de acolhê-los, tornar-me-ei mais inteiro.

A sombra é o que dá relevo à luz. Quando amamos alguém, um dos sinais de amor verdadeiro é que amamos os seus defeitos. É fácil amar os defeitos de nossos filhos. É difícil amar os defeitos dos adultos ou de nossos cônjuges. Esse amor de que falamos não significa complacência, não é dizer ao outro que me agrada o que ele tem de desagradável, pois isso seria mentira e hipocrisia. O amor de que falamos é dar ao outro o direito de ser diferente. É dar a ele o direito de experimentar sua liberdade. De experimentar em mim mesmo esta capacidade de amar o que é amável e de amar, também, o que não é amável. Dessa maneira passaremos de uma vida submissa para uma vida escolhida (p. 83).

[...] Nossa vida vale pelo olhar que é posto nela. Os olhares de juiz nos enchem de culpa. Há olhares benevolentes, misericordiosos e ao mesmo tempo, justos. Precisamos desses olhares porque todos nós temos necessidade de verdade e de sermos amados. Por vezes, os olhares que encontramos são muito amorosos, muito doces, mas falta a eles a exigência desta verdade. Outras vezes, os olhares que se colocam sobre nós são plenos de verdade e justiça, mas falta a eles a misericórdia e o amor.

[...] Há um olhar integral do qual temos necessidade a fim de nos vermos tal e qual somos. Porque a verdade sem amor é inquisição e o amor sem verdade é permissividade. Estas são reflexões gerais e cada um pode entrar em particularidades que lhes são próprias, sentindo se existe em sua vida alguém que pode suportar sua sombra sem julgá-la, apesar de não se mostrar complacente com ela. Creio que todos nós temos a necessidade, pelo menos uma vez em nossas vidas, de um tal olhar pousado sobre nós. Nesse momento não teremos mais necessidade de mentir, de nos iludirmos, de usarmos máscaras. Podemos mostrar nossa verdadeira face, nosso verdadeiro corpo, com seus desejos e seus medos. Podemos mostrar nossa verdadeira inteligência com seus conhecimentos e suas ignorâncias. Mostrar-se com o coração verdadeiro, capaz de muita ternura e também capaz de dureza e indiferença. Mostrar-se como não-perfeito, mas aperfeiçoável. Sob este olhar nossa vida pode crescer. Porque o olhar que nos julga e nos aprisiona em uma imagem nos faz ficar parados, enquanto que o outro olhar nos impulsiona a dar um passo adiante desta imagem que os outros têm de nós (p. 100).

Trechos da obra Além da luz e da sombra – sobre a arte do morrer, do viver e do ser ( Editora Vozes, 2001), de Jean-Yves Leloup. É o tipo de texto que gostaria de dizer há muito tempo mas não sabia como.

Tornar-se adulto é passar da idade dos contrários para a idade do
complementar, para um outro modo de olhar as coisas. Se alguém diz
algo contrário ao que penso e sou capaz de entender esse contrário
como  complementar, vou crescer em consciência e em compreensão. Se em
vez de rejeitar ou negar alguns elementos de minha vida obscura, sou
capaz de acolhê-los, torna-me-ei mais inteiro.

A sombra é o que dá relevo à luz. Quando amamos alguém, um dos sinais
de amor verdadeiro é que amamos os seus defeitos. E´fácil amar os
defeitos de nossos filhos. E´difícil amar os defeitos dos adultos ou
de  nossos cônjuges. Esse amor de que falamos não significa
complacência, não é dizer ao outro que me agrada o que ele tem de
desagradável pois isso seria mentira e hipocrisia. O amor de que
falamos é dar ao outro o direito de ser diferente. E´dar a ele o
direito de experimentar sua liberdade. De experimentar em mim mesmo
esta capacidade de amar o que é amável e  de amar, também, o que não é
amável.  Dessa maneira passaremos, de uma vida submissa para uma vida
escolhida. (p.83)

(…)

…Nossa vida vale pelo olhar que é posto nela.  Os olhares de juiz
nos enchem de culpa. Há olhares benevolentes, misericordiosos e ao
mesmo tempo, justos. Precisamos desses olhares porque todos nós temos
necessidade de verdade e de sermos amados. Por vezes, os olhares que
encontramos são muito amorosos, muito doces, mas falta a eles a
exigência desta verdade. Outras vezes, os olhares que se colocam sobre
nós são plenos de verdade e justiça, mas falta a eles a misericórdia e
o amor.

… Há um olhar integral do qual temos necessidade a fim de nos vermos
tal e qual somos. Porque a verdade sem amor é inquisição e o amor sem
verdade é permissividade.
Estas são reflexões gerais e cada um pode entrar em particularidades
que lhes são próprias, sentindo se existe em sua vida alguém que pode
suportar sua sombra sem julga-la, apesar de não se mostrar complacente
com ela. Creio que todos nós temos a necessidade, pelo menos uma vez
em nossas vidas, de um tal olhar pousado sobre nós. Nesse momento não
teremos mais necessidade de mentir, de nos iludirmos, de usarmos
máscaras. Podemos mostrar nossa verdadeira face, nosso verdadeiro
corpo, com seus desejos e seus medos. Podemos mostrar nossa verdadeira
inteligência com seus conhecimentos e suas ignorâncias. Mostrar-se com
o coração verdadeiro, capaz de muita ternura e também capaz de dureza
e indiferença. Mostrar-se como não-perfeito, mas aperfeiçoavel. Sob
este olhar nossa vida pode crescer. Porque o olhar que nos julga e nos
aprisiona em uma imagem faz-no ficar parados, enquanto que o outro
olhar nos impulsiona a dar um passo adiante desta imagem que os outros
têm de nós. (p.100)

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