A falsa dicotomia teoria-prática

21 de julho de 2011 por Mauricio Serafim
Categorias: academia, educacao

A preocupação com a prática pode se tornar um mal entendido quando se antagoniza com a teoria, ou seja, quando a primeira é vista como prioridade, relegando à segunda um caráter de ‘mal necessário’. [1] Tomando isso como certo, está se considerando que uma é mais importante que outra, consideração essa apenas possível se dicotomizarmos a teoria da prática. Feita a separação, uma parece ter vida própria em relação à outra, adquirindo status diferenciados.

A falsa dicotomia teoria prática Façamos um experimento de pensamento e consideremos que realmente sejam autossuficientes. A teoria, fora da prática social, assemelha-se ao livro colocado em uma biblioteca que ninguém lê. Sua existência não faria a menor diferença às pessoas. Essa desvinculação da teoria com a prática a transforma em mero palavreado, que Paulo Freire chamou de verbalismo. Aqueles que criticam a teoria estéril, mesmo sem saber, referem-se a esse gosto da ‘palavra oca’, sem nenhum tipo de compromisso com a realidade.

A prática, tomada como autossuficiente, não passa de mera técnica. Essa nos mostra o como fazer ( know-how ), nos dando prescritivamente passos para realizarmos determinada tarefa. O problema está no fato de que, com o fornecimento desses métodos há uma data de validade – como toda receita – no tempo e no espaço, variando muito de contexto para contexto. Por exemplo, o sistema de produção, a organização administrativa e a realidade econômica variam de empresa para empresa, de região para região. Devido a isso é impossível ensinar na universidade todas as técnicas de todos os possíveis contextos em que o aluno irá se inserir. Neste caso, o aluno terá que possuir as condições mínimas e necessárias para que possa desenvolver a habilidade para quando se deparar como o novo, saber avaliá-lo, julgá-lo, apreendê-lo e modificá-lo de acordo com a realidade na qual está inserido. Em uma frase, deverá ser autônomo e não autômato. Sob o ponto de vista apenas da prática, o indivíduo fica à mercê da técnica e, portanto, se torna autômato, simples repetidor.

Quando olhamos a teoria e a prática em relação e em constante tensão, dissipam-se os dois cenários acima. A teoria não se torna verbalismo nem a prática em automatismo. Dessa forma, no entender de Paulo Freire, a teoria “implica numa inserção na realidade, num contato analítico com o existente, para comprová-lo, para vivê-lo e vivê-lo plenamente, praticamente” [2] . Freire rebate a afirmação de que o pecado de nossa educação é ser ‘teórica’ afirmando que “nossa educação não é teórica porque lhe falta esse gosto da comprovação, da invenção, da pesquisa. Ela é verbosa. Palavresca” [3] , no sentido que lhe atribuímos quando a teoria se pretende autossuficiente.

A relação teoria-prática permite entender a teoria como o farol do carro na estrada em uma noite escura, que ilumina, a cada momento, um novo ângulo e de modo diferente, a fim de decifrar a topografia do percurso. A admissão da relação teoria-prática explicita tal interdependência que permite um maior apuramento de ambas. É o ‘estar em relação’ que dá o caráter dinâmico da transformação tanto da teoria quanto da prática. Considerá-las independentes é relegá-las ao estatismo, inércia, imobilismo.

A teoria é feita de conceitos, que são abstrações da realidade. Assim como foi comparado com o farol de um carro, podemos entender as abstrações como caminhos do pensamento que nos aproximam das dimensões do real. Como afirma Luis Boada, “a compreensão que possamos ter da situação concreta será maior se formos capazes de nos aproximar da realidade manifestada através daquele conceito abstrato” [4] . Quanto maior for o grau de concretude do pensamento, menor será a compreensão da realidade. Isso porque há uma tendência em atribuirmos propriedades de partes de uma realidade que experienciamos à totalidade dessa realidade. Por exemplo, se algum indivíduo não possui a capacidade de abstração (ou teórica), algumas experiências desagradáveis com algumas mulheres tenderão a ser julgadas por ele como uma característica de toda uma categoria humana denominada mulher .

Com isso quero deixar claro que não podemos pensar se devemos privilegiar ou a prática ou a teoria. Devemos privilegiar a teoria e a prática. É uma relação includente e não excludente. O aluno deve ser alfabetizado – seja em administração, economia, engenharia ou qualquer outra área do conhecimento – para ler o mundo e não apenas as palavras. Uma educação que privilegia preponderadamente a técnica (ou a famigerada ‘prática’) é uma alfabetização reduzida e mecânica da existência. Abstrair não é fugir da realidade, mas nela se inserir de um modo não banal. Portanto, acredito que o embate entre teoria-prática esconde algo mais profundo: se desejamos ou não entender o mundo. Se desejamos educar pessoas para a autonomia ou automato nomia [5] . Se desejamos repetidores ou criadores. Olhando por esse ângulo, podemos perceber a falácia que é separar e diferenciar o status entre a prática e a teoria. Não é lógico, mas ideológico.


[1] Uma primeira versão deste texto foi publicada na Revista Espaço Acadêmico, ano 1, n. 7, 2001.

[2] FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade . Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1999.

[3] (Id., ibidem)

[4] BOADA, Luis. Uma economia poética . São Paulo : Brasiliense, 1987, p.17.

[5] Neologismo formado pelas palavras autômato (maquinismo que se põe em movimento por meios mecânicos) e nomos (lei, regra norma), ou seja, capacidade de apenas se comportar mecanicamente, automaticamente, provinda de leis mecânicas.

Compartilhe!
  • A falsa dicotomia teoria prática

Livro do Denhardt publicado!

21 de abril de 2011 por Mauricio Serafim
Categorias: academia, administracao, educacao

Livro do Denhardt publicado!

Do blog Administração Pública :

Foi com muito orgulho que soubemos do lançamento do livro do Denhardt pela editora Cengage . Agradecemos ao prof. Heidemann pela descoberta do livro e por todos esses anos de aprimoramento da tradução para o português e de seu uso na graduação. Um legado que teremos a honra de dar continuidade.

A obra de Robert Denhardt aparece em momento extremamente oportuno para o administrador público brasileiro. O campo de estudos da administração pública vive uma transição, depois do período de cerca de 30 anos do predomínio excessivo do pensamento administrativo conhecido e praticado mundialmente com o nome de new public management , que no Brasil recebeu o nome de “nova gestão pública” ou administração pública gerencial.

Teorias da administração pública é uma obra que tem em sua mira possibilitar a efetiva coprodução dos valores societários publicamente definidos. Trata-se de um texto que propicia aos seus leitores, em grau diferenciado, uma recolocação vigorosa das questões particularmente caras ao campo da administração pública, em especial o interesse público, a governança democrática e o papel do administrador público enquanto articulador, facilitador e catalisador dos anseios dos cidadãos. ( do site da editora )

Compartilhe!
  • Livro do Denhardt publicado!

Falou e disse [1]

13 de setembro de 2009 por Mauricio Serafim
Categorias: academia, ciencia

“Encarando a matéria do ponto de vista psicológico, inclino-me a pensar que as descobertas científicas não poderiam ser feitas sem fé em idéias de cunho puramente especulativo e, por vezes, assaz nebulosas, fé que, sob o ponto de vista científico, é completamente destituída de base e, em tal medida, é ‘metafísica’” (p. 40).

“As teorias científicas são enunciados universais. Como todas as representações linguísticas, são sistemas de signos e símbolos [...]

As teorias são redes, lançadas para capturar aquilo de denominamos de ‘o mundo’: para racionalizá-lo, explicá-lo, dominá-lo. Nossos esforços são no sentido de tornar as malhas da rede cada vez mais estreitas” (p. 61-62)

Karl Popper. A lógica da pesquisa científica . São Paulo: Cultrix, 2001.

Compartilhe!
  • Falou e disse [1]

Teoria e prática – Apresentações [1]

28 de agosto de 2009 por Mauricio Serafim
Categorias: academia, administracao, educacao
Apresentação PAC – Teoria e Prática

Apresentação de um grupo de alunos do oitavo termo do curso de Administração Pública da USAG/UDESC Fpolis na minha disciplina de Teoria e Prática em Administração dos Serviços Públicos.

Compartilhe!
  • Teoria e prática   Apresentações [1]
Página 1 de 11