Sobre as políticas de “promoção dos pobres”

13 de agosto de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: politica, sociedade

Indaguei, certa feita, por que tantas ONGs sobem o morro, no Rio, ou vão à periferia, em São Paulo, para ensinar ao povo o que o povo já sabe: rap ou funk , batuque, malabarismo, artes circenses. Por que não lhes oferecer também Mozart, Manuel Bandeira ou Machado de Assis? Aquela “gente” que está lá não tem anseios distintos dos nossos, não, desde que tenha a oportunidade de alargar seu repertório. Sua origem não a condena a dormir eternamente na rede, sem direito a sonhar com a cama de ripa. [...]

E como se consegue isso? Por meio de uma educação que tenha um caráter universalista [...] . O “povo” não pode mais ser visto como uma variante antropológica, como um ser de uma outra espécie, a quem voltamos, caridosos, os olhos, certos de que ele emitirá uma mensagem para nos comover, na sua poética rusticidade.

As políticas de “promoção dos pobres” hoje em curso têm um apelo identitário: algumas oportunidades lhes são oferecidas [...] não para que deixem de ser pobres, mas para que transformem a pobreza num saber e num discurso de auto-afirmação. Pode haver preconceito mais odiento do que esse? Pode haver discriminação de classe mais evidente?

Reinaldo Azevedo vai na veia .

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A ideologia do pobrismo

27 de junho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: administracao, politica, sociedade

Faz algum tempo que ando pensando acerca de uma ideologia que está se formado no Brasil e se institucionalizando, inclusive nas políticas públicas. Eu não conseguia um nome para ela, mas Reinaldo Azevedo batizou e acertou em cheio: pobrismo . De acordo com Reinaldo, “consiste em transformar as carências em um valor a ser exaltado, jamais superado”. Concordo com ele. Salvo raras exceções está se aceitando o ” poor is beautiful ” como se fosse algo inevitável. O Estado não pode se resignar ao ponto de optar pela valorização da pobreza como uma condição possível de ser vivida. O combate à fome, linha mestra do governo petista, neste segundo mandato poderia ter sido transformado em “superação da pobreza”, para que as pessoas nestas condições pudessem ter uma porta de saída das políticas de segurança alimentar, como a bolsa família. Mas é altamente improvável que isso aconteça. O Partido dos Trabalhadores, que não possui políticas públicas para os trabalhadores informais – que representam metade da população economicamente ativa -, deixou de lado também a idéia de dignidade.

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