Entusiasmo respeitoso pela Universidade e a esperança do futuro dos povos ocidentais

9 de julho de 2011 por Mauricio Serafim
Categorias: academia

Mas não é somente a politização que reduz o respeito à Universidade. É também a excessiva profissionalização, o utilitarismo — em forma extrema, sua transformação em centro de expedição de títulos e diplomas. Quando a Universidade é valorizada unicamente por seus ensinamentos imediatamente utilizáveis para fins econômicos, quando os estudantes não se interessam por cursos “desnecessários” ou difíceis, a Universidade deixa de ser o que é. Porque a Universidade nutre-se de vocações intelectuais, e o sintoma mais claro de tais vocações é a fruição, a curiosidade, o prazer no tratamento dos problemas, a satisfação na convivência de professores e discípulos.

Cada vez que vejo mais de perto professores universitários, pondo de lado sua competência científica, que pode ser considerável, surpreende-me a frequência com que pertencem a um tipo humano que em nada se parece com o que se costumava entender por “intelectual”. São mais semelhantes aos chamados “executivos”, ou a técnicos ou administradores. Têm pressa — o que não significa forçosamente que façam muito; não parecem interessar-se por nada que não tenha relação muito direta com seus trabalhos; não se lançam avidamente em busca de alguma ideia atraente; não dão impressão de prazer — ainda que seja um prazer tenso e doloroso — ao escrever (e provavelmente ao ensinar).

Será possível, nessas condições, contagiar os estudantes com o entusiasmo das disciplinas intelectuais? Será fácil despertar neles sua vocação? O exercício do pensamento — essa operação humana que consiste em perguntar-se pelas coisas e procurar entendê-las — poderá florescer com tais pressupostos, em instituições estreitamente utilitárias, sem luxo vital — em suma, prosaicas?

Discute-se interminavelmente sobre a reorganização das universidades. Fala-se em dinheiro, principalmente, em recursos necessários, na intervenção em sua gestão de tais ou quais escalões, dos quais espera-se uma dose maior de poder; favorecem-se ou condenam-se as universidades privadas — e às vezes são assim chamadas as que não o são. Não vejo serem formuladas perguntas que tenham alguma analogia com as que acabei de formular para mim mesmo.

A crise da Universidade é mais um elemento daquilo a que ocasionalmente chamam de dessacralização da realidade. Se tal expressão parece excessiva, evitemo-la; por isso falei simplesmente em respeito, palavra tão forte na pena, por exemplo, de Kant. O dia em que a Universidade voltar a inspirar-se no entusiasmo e no respeito — ou, se preferem, no entusiasmo respeitoso — voltarei a acreditar nela e a encarar com esperança o futuro dos povos ocidentais (e com um pouco menos de temor dos demais povos).

Trecho do excelente artigo de Julían Marías. Peguei daqui.

Compartilhe!
  • Entusiasmo respeitoso pela Universidade e a esperança do futuro dos povos ocidentais

Ocidente e Islã: uma convivência possível, porém…

1 de fevereiro de 2011 por Mauricio Serafim
Categorias: cultura, politica, religiao, sociedade

Os direitos individuais são a pedra de toque para saber se uma convivência minimamente harmônica entre Ocidente e Islã é possível. O que distingue o Ocidente das demais civilizações são as suas bases espirituais: a afirmação da razão humana como eficaz para conhecer a realidade e, como consequência disso, a descoberta de uma moral natural. Um dos maiores méritos de Tomás de Aquino é exatamente esse: a elaboração racional da ética sem necessidade de fé e não circunscrita a um “povo eleito”. Nossos direitos inalienáveis são descendentes diretos da lei natural de S. Tomás. Não é pouca coisa que, nos séculos XVI e XVII, enquanto a Espanha expandia seu império e escravizava povos inteiros, os teólogos de Salamanca afirmavam que os índios tinham direito a suas terras e à sua liberdade, que nada justificava o roubo de suas posses e sua escravização, nem mesmo a recusa em se converter ao Cristianismo. Parece pouco, dado que os crimes ocorreram sem grandes empecilhos práticos? Mas no campo do espírito quem venceu foi Salamanca, e isso fez toda a diferença.

A grande conquista do Ocidente é essa: a eficácia da razão humana no plano teórico e os direitos individuais no plano prático. A ciência, a arte, a riqueza, são consequências disso. Os muçulmanos não têm nenhum pudor em se apropriar de certas filosofias ocidentais. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo; de fato, todas vieram do Ocidente; mas o que as caracteriza é justamente a negação daquilo que nos constitui. A razão humana é incapaz de conhecer o mundo real, e o discurso moral e político não passa de máscara para jogos de poder. Elas caem como uma luva para uma visão de mundo fideísta : a razão é impotente, portanto tudo é questão de fé; portanto ninguém tem como criticar minha fé. Não há certo e errado objetivos, apenas vontades arbitrárias em conflito; portanto, entreguemo-nos à vontade arbitrária de Deus.

Ótimo t exto de Joel Pinheiro sobre o conflito no mundo islâmico e o que nós temos a ver com isso.

Compartilhe!
  • Ocidente e Islã: uma convivência possível, porém...

Ciência e relativismo moral

8 de junho de 2010 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia

Palestra provocativa de Sam Harris que critica o relativismo moral/cultural.

Compartilhe!
  • Ciência e relativismo moral

Política e religião (10) – Entre a cruz e o Estado

18 de novembro de 2009 por Mauricio Serafim
Categorias: politica, religiao

[...] Um exemplo da “indigestão” causada pelo relativismo no Ocidente é o recente caso dos crucifixos nas escolas italianas. Aparentemente uma mãe se queixou de que o filho se sentia “desrespeitado” porque, não sendo cristão, tinha que frequentar uma sala de aula com uma cruz na parede. A partir daí, teriam decidido pela proibição do crucifixo nas escolas.

Essa decisão é ridícula porque a cruz é um símbolo, seja eu cristão ou não, das raízes do próprio Ocidente, naquilo que ele mais preza: amor ao próximo, generosidade e justiça, enfim, um Deus que morre de amor. Nós contemporâneos somos ignorantes de um modo gritante acerca do cristianismo, confundindo-o com alguns de seus momentos mais infelizes e cruéis (toda cultura é infeliz e cruel de alguma forma). Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade, e os ignorantes que a realizaram deveriam ser obrigados a pedir desculpa aos cristãos.

Trecho do artigo do filósofo Luiz Felipe Pondé ( acesse aqui ). Um outro texto que também aborda o assunto e que foge do senso comum da intelectualidade universitária é este aqui .

Compartilhe!
  • Política e religião (10)   Entre a cruz e o Estado

Um texto pertinente de Daniel Piza

14 de junho de 2009 por Mauricio Serafim
Categorias: cultura, educacao, vida

Sabe aquele texto que você gostaria de ter escrito? O texto de Daniel Piza de hoje é um deles. Aborda muitos pontos que para mim são caros, como a preocupação com a desvalorização da “cultura geral” e da cultura ocidental. Apenas para você ter uma idéia do que meu entusiasmo com o texto, segue um pequeno trecho:

Inteligência, claro, também parece tão fora de moda quanto usar chapéus. Programas de TV e revistas falam o tempo todo em “tipos de inteligência” ou em “inteligência emocional”, mas não conseguem disfarçar o sabor de vingança que sentem com esse desprestígio do raciocínio articulado, formado por leituras atentas. E desvincular inteligência e cultura é outra tática que só serve ao conservadorismo dos nossos tempos, ao consumismo sentimental que emana da mídia sem parar. Sim, há pessoas que leram muito e continuam burras, mas isso porque leem burramente… O difícil é querer que as pessoas realmente inteligentes não sejam curiosas por natureza, atraídas pelo conhecimento porque sabem que sem ele não há equipamento mental que se aprimore.

Você pode ler o texto completo aqui .

Compartilhe!
  • Um texto pertinente de Daniel Piza
Página 1 de 11