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Mas não é somente a politização que reduz o respeito à Universidade. É também a excessiva profissionalização, o utilitarismo — em forma extrema, sua transformação em centro de expedição de títulos e diplomas. Quando a Universidade é valorizada unicamente por seus ensinamentos imediatamente utilizáveis para fins econômicos, quando os estudantes não se interessam por cursos “desnecessários” ou difíceis, a Universidade deixa de ser o que é. Porque a Universidade nutre-se de vocações intelectuais, e o sintoma mais claro de tais vocações é a fruição, a curiosidade, o prazer no tratamento dos problemas, a satisfação na convivência de professores e discípulos.
Cada vez que vejo mais de perto professores universitários, pondo de lado sua competência científica, que pode ser considerável, surpreende-me a frequência com que pertencem a um tipo humano que em nada se parece com o que se costumava entender por “intelectual”. São mais semelhantes aos chamados “executivos”, ou a técnicos ou administradores. Têm pressa — o que não significa forçosamente que façam muito; não parecem interessar-se por nada que não tenha relação muito direta com seus trabalhos; não se lançam avidamente em busca de alguma ideia atraente; não dão impressão de prazer — ainda que seja um prazer tenso e doloroso — ao escrever (e provavelmente ao ensinar).
Será possível, nessas condições, contagiar os estudantes com o entusiasmo das disciplinas intelectuais? Será fácil despertar neles sua vocação? O exercício do pensamento — essa operação humana que consiste em perguntar-se pelas coisas e procurar entendê-las — poderá florescer com tais pressupostos, em instituições estreitamente utilitárias, sem luxo vital — em suma, prosaicas?
Discute-se interminavelmente sobre a reorganização das universidades. Fala-se em dinheiro, principalmente, em recursos necessários, na intervenção em sua gestão de tais ou quais escalões, dos quais espera-se uma dose maior de poder; favorecem-se ou condenam-se as universidades privadas — e às vezes são assim chamadas as que não o são. Não vejo serem formuladas perguntas que tenham alguma analogia com as que acabei de formular para mim mesmo.
A crise da Universidade é mais um elemento daquilo a que ocasionalmente chamam de dessacralização da realidade. Se tal expressão parece excessiva, evitemo-la; por isso falei simplesmente em respeito, palavra tão forte na pena, por exemplo, de Kant. O dia em que a Universidade voltar a inspirar-se no entusiasmo e no respeito — ou, se preferem, no entusiasmo respeitoso — voltarei a acreditar nela e a encarar com esperança o futuro dos povos ocidentais (e com um pouco menos de temor dos demais povos).
Trecho do excelente artigo de Julían Marías. Peguei daqui.


