Durante os dias de 19 a 23 de janeiro fiz uma visita ao Instituto Universitário Sophia , localizada na cidade de Incisa in Val d’Arno, perto de Florença (região de Toscana). Inaugurada em 2008, oferece os cursos de mestrado (na Itália se chama master e equivale ao curso de especialização no Brasil) e doutorado em ‘Princípios e perspectivas para uma cultura da unidade’. Sophia é um instituto pequeno, com cerca de 100 alunos 20 professores (entre os estáveis e convidados), que está ainda se estruturando e aprimorando sua identidade. Entretanto, algumas peculiaridades já a diferencia de outras universidades e institutos.
A primeira é que há alunos de todo o mundo e nota-se uma diversidade realmente construtiva onde se busca compreender a cultura do outro. Nos momentos em que os alunos se encontram fora da sala de aula, ouve-se vários sotaques do italiano procurando se compreender. A convivialidade é incentivada e um dos pontos centrais de encontro é o saguão do instituto, onde há uma máquina de café administrada pelos próprios alunos. Qualquer um que saiba manejá-la se incube de preparar alguns cafés nos intervalos entre as aulas – que seguem o ritmo 45 min. de aula e 15 de intervalo, das 8h30 às 13h15 e das 15h às 16h45. Há sobre o balcão uma pequena cesta onde podem ser deixadas alguns moedas para financiar a manutenção da máquina e a compre do café e do leite. Uma experiência autogestionária simples, mas bastante pedagógica.
No dia seguinte a minha chegada, participei como ouvinte de uma aula de filosofia política com o prof. Antonio Maria Baggio . Além da diversidade de nacionalidades, há também a diversidade de campos de conhecimento. Havia, entre outros, jornalistas, biólogos, médicos, engenheiros, teólogos, filósofos, sociólogos, designers , economistas, todos se esforçando para compreender um texto de Romano Guardini (1885-1968). Uma metodologia muito interessante utilizada pelo prof. – baseada no conceito de kénosis – é a de compreender em profundidade o texto do autor no primeiro momento, para só depois fazer comparações ou críticas. E essa metodologia é levado muito a sério. Quando alguns alunos faziam perguntas procurando comparar o trabalho de Guardini com outros, o prof. dizia claramente que ainda não era o momento para isso, mas que se deveria “fazer-se vazio” de críticas e comparações para poder acolher completamente a ideia do autor.
Durante os quatro dias tive conversas interessantes com o filósofo brasileiro Felipe Müller, o economista italiano Luigino Bruni e o sociólogo belga Bernhard Callebaut . Também tive a sorte de assistir à palestra com Massimo Cacciari , um dos principais filósofos italianos da atualidade. Dessa palestra e da aula que assisti notei duas coisas que me chamaram muito a atenção no Instituto: o valor dado aos clássicos da filosofia para a discussão sobre a realidade atual da civilização ocidental e a inserção da teologia cristã e da cultura hebraica no diálogo com outras disciplinas e campos do conhecimento. E essa constatação me fez pensar sobre a distância que há entre esse ensino universitário, que busca compreender a cultura de forma mais abrangente possível, e o nosso, que diz valorizar a diversidade, mas que é, ao mesmo tempo, hostil com a tradição da cultura ocidental.
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