Um dia com Leonardo da Vinci

27 de junho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: arte, ciencia, educacao, politica

Um dia com Leonardo da VinciEm Milão há o Museu Nacional da Ciência e Tecnologia “Leonardo Da Vinci”. Entre outras coisas, há uma exposição sobre os trabalhos de Leonardo Da Vinci na área de tecnologia. Surpreendente. Para você ter uma idéia clique aqui e veja quantas coisas Da Vinci projetou. Ele foi um dos grandes e talvez um dos últimos que conseguiram unir o humanismo e a ciência.

Contudo, o que mais me impressionou na visita foi ver que há espaços reservados para que as crianças tenham contato tanto com as invenções de Da Vinci quanto com as áreas mais recentes da tecnologia, como a robótica. São laboratórios bem equipados e bonitos onde as crianças podem reproduzir experimentos coordenados por monitores. Também há um outro espaço para que as crianças possam brincar e seus pais descansarem. Tudo sempre muito bem cuidado. A entrada, como dizemos no Brasil, é a preço popular.

Como brasileiro, obviamente que fiquei impressionado com todo esse cuidado com a educação das crianças e com a estética. O meu dia com Leonardo Da Vinci me evidenciou que realmente não estamos acostumados a isso.

Cartas à milanesa (III)

11 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: academia, administracao, comportamento, cultura, politica, sociedade

Estou percebendo algumas diferenças do ambiente acadêmico da Itália em relação ao Brasil.

Cartas à milanesa (III)Fico surpreendido com o meu orientador italiano – prof. Alberto Martinelli, da Univeridade de Milão, um acadêmico com um currículo respeitável – que debate com seriedade temas como responsabilidade social empresarial, empreendedorismo e administração, que passam muitíssimo ao largo dos departamentos brasileiros de sociologia e ciência política. Prof. Martinelli – que trabalhou com Neil Smelser e Philip Selznick na Universidade de Berkley – se dedicou a esses temas abordando-os sociologicamente. Conhecendo seus livros e os de seus colegas que estão sendo publicados, percebo que há um grau de ideologização menor que no Brasil. Eles estão mais preocupados em analisar e compreender um fenômeno social – geralmente um problema atual, como a imigração, a pobreza, a União Européia e a globalização – oferecendo recursos teóricos para ações futuras de atuação na sociedade do que estabelecer terrenos ideológicos e ter comportamentos preconceituosos a alguns assuntos e temas, como acontece no Brasil. Para se ter uma idéia, um colega do doutorado da FGV me recomendou que eu não mencionasse a palavra “empreendedorismo” quando fosse falar com um antropólogo ou sociólogo brasileiro porque temas do universo da gestão não são bem aceitas, a não ser que seja do ponto de vista “crítico”.

Um outro fato que me surpreendeu foi um cartaz na Universidade Estatal de Milão que convidava para uma reunião os estudantes de “direita”. Fiquei parado, olhando o cartaz, quase não acreditando, porque é impossível imaginar que isso possa acontecer em uma universidade estatal brasileira. E fiquei me perguntando se a falta dessa diversidade de pensamento e do diálogo com quem pensa diferente não está fazendo muito mal ao meio acadêmico brasileiro. Será que não devemos reaprender, como na pintura deste post, com Platão e Aristóteles? Certo que eles não estavam discutindo sobre direita e esquerda, mas – como suas mãos sugerem – sobre o em cima (mundo das idéias) e o embaixo (mundo vivido). Bem, isso é uma outra história, mas fica a lição.

Show de Loreena McKennitt

23 de março de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: arte, cultura, musica, vida

Show de Loreena McKennitt

Ontem fui ao show de Loreena McKennitt, um antigo sonho, desde que conheci sua música numa fita K7 que um amigo meu – hoje padre Alexandre – me emprestou. Ainda me lembro daquela noite em que estava escrevendo minha dissertação de mestrado, em 2000. Era 11:00 da noite e coloquei a fita para tocar, sem pretensão. Havia muito tempo que nada me surpreendia musicalmente, apenas gostava ou não. Comecei a escrever e a música a soar. Num certo momento senti uma leveza no coração e não sei bem o porquê, lágrimas vieram. Por isso, quis conhecê-la um pouco mais e comprei seus CDs, que sempre estiveram muito comigo, principalmente em momentos que era preciso sentir um pouco mais a beleza. Considero-a a artista atual que melhor consegue extrair beleza da melodia. E como a melodia é fundamental para mim, Loreena é a minha compositora favorita. E tive a oportunidade de assisti-la no Teatro degli Arcimboldi, em Milão. A turnê que está passando pela Europa é de seu novo trabalho, An Ancient Muse, canções encantadoras que remetem a viagens e a nossas heranças universais. O trabalho, inspirado no livro Odisséia, de Homero, é o primeiro trabalho inédito desde 1998, ano de falecimento de seu noivo, em um lamentável acidente de barco.

Show de Loreena McKennittO cenário do show estava impecável e os efeitos das luzes nos absorviam para o mundo que ela cantava. As músicas dos outros álbuns tiveram bastante destaque e muitas delas empolgaram o público, que expressaram muito carinho por Loreena por meio de aplausos demorados e três pedidos de bis. Além da instrumentos inusitados que ela usa em suas músicas – como o nyckelharpa (violino dedilhado da Escandinávia) – me chamou a atenção quando ela disse que o álbum também é sobre as pessoas que viajam para poderem se conhecer e se encontrar. De alguma forma isso sempre esteve presente em várias civilizações ao longo de nossa história. E me tocou particularmente porque estou fazendo uma viagem – por dever profissional – mas que está tocando profundamente minha alma. E Loreena me ajudou a entendê-la.

Para se ter uma pequena noção de como é o seu show, acesse dois vídeos de um concerto na Espanha, em que interpreta duas canções de seu novo álbum: Penelope’s song e Caravanserai. Boa viagem!

Cartas à milanesa (II)

11 de março de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: civismo, comportamento, cultura, ensaio, sociedade

Comecei a notar algumas diferenças entre o estilo de vida dos italianos e a nossa. Algo que fica muito evidente é como eles conseguem viver o espaço público. No Brasil temos receio de freqüentá-lo e cada vez mais raramente podemos usufrui-lo, por estar deixando de ser público e se tornando privado, virando moradia de mendigos, ponto de prostituição ou de venda de ambulantes, entre outros. Há muito a praça deixou de ser lugar de encontro e fonte do sentimento de pertença à cidade. Em Milão, as praças são lugares onde as pessoas podem caminhar e “dar um tempo”, ou ainda se encontrar com pessoas para conversar, comer e beber algo. E eles sabem muito bem comer e beber. A qualidade da comida que se consome cotidianamente é superior ao Brasil. Para ter essa qualidade, precisamos gastar muito mais.

O transporte público parece funcionar bem. Em Milão há ônibus, bonde, trem e metrô. Todos os transportes públicos são usados sem percebermos uma distinção de classe, como vemos no Brasil. Nos três anos que fiquei em São Paulo não me lembro de ter visto alguém da classe média levando seu filho em carrinho de bebê no metrô. Isso é muito comum aqui. Há uma razão para o uso intensivo de transportes públicos: em Milão, é muito difícil de se andar de carro porque não há muitos estacionamentos e vagas, uma fonte de desestímulo – não sei se intencional ou não. Como a cidade é plana, também podemos ver pessoas de trajes elegantes indo de bicicleta para o trabalho ou escola, algo muito inusitado para os paulistanos.

Em todas as viagens de metrô que fiz aqui sempre surgiu alguém no vagão pedindo dinheiro ou tocando alguma música no violino ou acordeom para ganhar alguns trocados. Em sua maioria são pessoas vindas de países do Leste Europeu e que fazem parte do contingente da camada mais pobre da cidade, juntamente com os marroquinos. Aqui é muito comum se afirmar que os pobres não são os italianos natos, mas esses imigrantes. [Continua]

Cartas à milanesa (I)

10 de março de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: comportamento, cultura, ensaio, sociedade

Estou morando em uma numa cidadezinha chamada Cernusco Sul Naviglio, distante 10 quilômetros de Milão. É uma comune (como eles chamam aqui) de 13 quilômetros quadrados e 30 mil habitantes. A primeira coisa que me chamou a atenção foi sua beleza. A natureza, muito presente, é apreciada em suas sete praças e dois parques e todo o espaço público é muito bem cuidado. Nas praças sempre há pessoas conversando e tomando café aproveitando o sol da manhã. No rio Naviglio, que atravessa a cidade, há patos nadando, algo bem estranho para alguém que vem da cidade de São Paulo. Bom, confesso que aqui tudo é muito estranho. A vida é calma, os horários do comércio são variados – porque cada negócio tem o seu, que é exposto na porta –, as pessoas saem nas ruas tranquilamente com os seus filhos em carrinhos de bebê e as praças são lugares onde as pessoas sentam e conversam. Tudo muito estranho…

Na primeira vez que fui à cidade de Milão de metrô, as pessoas que estão me hospedando ficaram preocupadas porque é a maior cidade da Itália e, como toda cidade grande, tem seus perigos. Também fiquei apreensivo. Mas havia me esquecido que a população de Milão, de dois milhões de habitantes, equivale ao número de pessoas que freqüentam por dia o metrô de São Paulo. A sensação que tive foi a de chegar numa cidade de interior: era calmo, sem os formigueiros humanos que me acostumei a fazer parte em São Paulo. Fui logo para o centro histórico, na Piazza Duomo (Praça Catedral). Fiquei sem fôlego ao ver a catedral medieval e estranhei como a praça é bem freqüentada. Conheci a famosa Galleria Vittorio Emanuele, dedicada ao primeiro rei da Itália. Perambulei pelas ruas e em todo lugar que eu ia tudo era muito bonito. [Continua]

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