Novos dados sobre religião no Brasil (continuação 3)

27 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: economia, religiao, sociedade

Este post finaliza o resumo que estou fazendo da pesquisa sobre religião e economia realizada pelo Centro de Políticas Sociais da FGV-RJ. A primeira parte do resumo pode ser acessada aqui (parte 1) e a segunda acessada aqui (parte 2). Também há um artigo de Marcelo Côrtes Neri, coordenador da pesquisa, que poderá ser acessado neste link.

Continuação: A pesquisa também relaciona a participação religiosa e o tamanho da cidade. Nas pequenas cidades a predominância é dos católicos, mas a participação cai – acompanhado do aumento dos evangélicos – na medida em que cresce o tamanho das cidades. Nas regiões metropolitanas – ao comparar a periferia em relação à capital – há um aumento dos sem religião (10,1% na periferia contra 9,9% na capital), uma diminuição de católicos (65,2 contra 68%) e um aumento considerável de evangélicos pentecostais (15,1% contra 11,7%).

As áreas rurais mais isoladas tem a predominância de católicos (84,3%) e possuem uma quantidade menos de ateus (4,6%) e de pentecostais (7,1%). Em áreas como favelas, cortiços e mocambos são onde os pentecostais (16,93%) e os sem religião (13,14%) estão mais presentes.

Em relação à migração, os nativos são mais católicos que os migrados. A taxa de adesão ao catolicismo é diretamente proporcional ao tempo de permanência no país, estado ou município, enquanto a taxa de adesão aos evangélicos pentecostais é inversa, ou seja, há mais adesões de pessoas que estão a menos tempo no lugar.

O estudo chama a atenção para o aumento da presença de evangélicos pentecostais e dos sem religião na periferia das grandes metrópoles brasileiras. Esses dois grupos também possuem a maior percepção da falta de serviços públicos do Estado. O estudo sugere que as igrejas pentecostais acabam realizando serviços que o Estado deveria garantir e a formação de redes sociais que dão suporte emocional, material e informações (como emprego) para os adeptos. O alto número dos sem religião se explicaria pelo desalento e falta de perspectiva em relação ao futuro. Com esses dados, Marcelo Neri afirma que os pentecostais crescem na “nova pobreza” (principalmente na periferia das grandes metrópoles, tendo como um dos fatores de formação dessa nova pobreza a estagnação econômica dos anos 1980 e 1990) enquanto que o catolicismo continua muito presente na “velha pobreza”(como, por exemplo, áreas rurais e cidades do interior do Nordeste).

Para finalizar, o estudo sugere uma “ética pentecostal” – uma variante da ética protestante, analisada por Max Weber – que é caracterizada assim: “enquanto o protestantismo tradicional liberou o cidadão comum da culpa da acumulação de capital provada, as novas seitas pentecostais liberaram a acumulação privada de capital através da igreja” (p. 36).

Novos dados sobre religião no Brasil (continuação 2)

5 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: economia, religiao, sociedade

Ainda segundo a pesquisa da FGV (veja post abaixo), a maior concentração de católicos estão nos extremos das classes (neste caso, as classes se dividem da seguinte forma: A1 = acima de 45 salários mínimos/mês; A2 = entre 25 e 45 sm/m; B1 = entre 15 e 25 sm/m; B2 = entre 10 e 15 sm/m; C = entre 4 e 10 sm/m; D = entre 2 e 4 sm/m; E = até 2 sm/m). Os evangélicos pentecostais e tradicionais se concentram mais nas classes B, C e D. Os pentecostais também possuem um contingente considerável (10, 9%) na classe E e sua maior concentração está na classe D (14,9%). Os evangélicos tradicionais possuem maior concentração na classe A2 (8,7%).Em relação aos anos de estudo, a um decréscimo na adesão à igreja católica da faixa dos que possuem mais anos de estudos e um aumento dos menos escolarizados. Os evangélicos cresceram em todos os níveis, com destaque para a faixa de 1 a 3 anos completos de estudo nas igrejas pentecostais e para a faixa de 8 a 11 anos de estudos nas igrejas evangélicas tradicionais.

Sobre a renda familiar, a pesquisa afirma que a média católica (R$2.023) ocupa a sétima posição na classificação das oito categorias de religião consideradas. As igrejas pentecostais (média de R$1.496) ocupam a oitava posição e os evangélicos tradicionais estão em quarto lugar (média de R$2.202). O primeiro lugar é ocupado pelas religiões orientais, com média de renda familiar de R$5.447.

Sobre as doações feitas às igrejas, a porcentagem doada em relação ao orçamento familiar é a seguinte: evangélicos pentecostais (2,26%), evangélicos tradicionais (1,48%), sem religião (1,31%), orientais (0,61%) e católicos (0,54%). Do montante estimado de R$5,1 bilhões por ano, 44% do total são feitos pelos pentecostais, 22,7% são feitos pelos evangélicos tradicionais e 30,9% pelos católicos (dados de 2003). Dos que fazem doações, 57,7% são católicos, 26,6% são evangélicos pentecostais e 14,3% evangélicos tradicionais. Entretanto, levando em conta a relação populacional de católicos em relação aos evangélicos e os dados das doações, há 3 vezes mais doadores evangélicos por fiéis do que os católicos.

Sobre a participação da mulher na religião, a pesquisa constata que elas (96%) são mais religiosas que os homens (93,7%), mas as mulheres (73,1%) são menos católicos do que eles (74,5%). A pesquisa mostra que as mulheres estão migrando para religiões e igrejas alternativas ao catolicismo, como as evangélicas (principalmente as pentecostais). Os autores sugerem algumas explicações para esses dados. Uma delas são as mudanças ocorridas nos últimos 40 anos acerca dos direitos e comportamentos da mulher: elas competem no mesmo mercado de trabalho dos homens para desenvolverem uma carreira (não apenas para terem um emprego), e, com isso, precisam fazer o controle da natalidade com mais eficiência (em relação ao método natural defendido pela igreja católica). O discurso contra o uso de anticoncepcionais artificiais e, de forma mais abrangente, a característica patriarcal da igreja católica, pode contribuir para essa migração. Eu acrescento que, apesar da igreja católica dar a Maria (mãe de Jesus Cristo) uma espaço significativo na sua doutrina, não oferece igualdade de funções e de poder para as mulheres. Muitas igrejas pentecostais oferecem essa igualdade, incluindo a função de pastoras e episcopisas, o que pode fazer com que algumas mulheres se identifiquem mais com essas igrejas.

(Continuo).

Novos dados sobre religião no Brasil

3 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: economia, religiao, sociedade

O Centro de Políticas Sociais – CPS da FGV do Rio de Janeiro divulgou no dia 02 de maio a pesquisa sobre a economia das religiões no Brasil. A pesquisa foi amplamente divulgada pela imprensa (veja no jornal Valor Econômico, Veja on-line, e portal G1). É possível acessar o texto do sumário executivo da pesquisa aqui.

A pesquisa mostra as mudanças recentes – de 2000 a 2003 – a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2003) do IBGE. Uma dessas novidades é que a proporção dos católicos (73,8%) se manteve estável neste período, que vinha caindo pouco mais de 1% ao ano desde 1990.

Os evangélicos continuam crescendo, de 16,2% em 2000 para 17,9% em 2003. Há duas novidades neste campo. A primeira é que a taxa de crescimento dos evangélicos tradicionais está mais acelerada que a dos evangélicos pentecostais, o que não vinha acontecendo nos anos 1990. A segunda é que os sem religião – cuja taxa caiu de 7,4% para 5,1% – estão se convertendo às igrejas evangélicas. Essa queda da taxa dos sem religião também pode significar que o país está mais religioso.

“A messe é grande e poucos são os operários” é mais verdadeira para a igreja católica. A proporção de pastores em relação aos padres é de 3,7 para 1, em uma população cuja proporção é de 4,7 católicos para 1 evangélico. Isso significa que há 18 vezes mais pastores evangélicos por adeptos do que padres por católicos. Os autores da pesquisa consideram esta “vantagem competitiva” como um dos fatores do contínuo aumento de conversões às igrejas evangélicas. Essa proporção é ainda maior nas metrópoles, principalmente nas periferias, cuja população é 25,5% evangélica, contra 16,7% formada de católicos. E é justamente este segmento da população que possui taxas maiores de crescimento populacional, o que pode ser um segundo elemento explicativo do crescimento das igrejas evangélicas.

Em 2004 e 2005 houve um aumento considerável na geração de emprego formal nas atividades religiosas. Em 2004 foram gerados 27 mil empregos líquidos (diferença entre empregos criados e destruídos) e em 2005, no período de janeiro a março, se registrou um aumento de três vezes do emprego líquido no mesmo período de 2005.

(Continuo).

Contradição (sobre o mal-entendido entre o Papa e o Islã)

19 de setembro de 2006 por Mauricio Serafim
Categorias: humor, recortes, religiao

Contradição (sobre o mal entendido entre o Papa e o Islã)

Aluguel de padres

31 de agosto de 2006 por Mauricio Serafim
Categorias: informacao, religiao

O jornalista Luis Antonio Ryff, do blog nominimo, postou uma notícia (abaixo), que me deixou pensando muito, principalmente pela impressão que me deixou: cada vez mais as igrejas (católica, evangélicas e demais) estão assumindo mais explicitamente sua instituição como uma prestadora de serviços religiosos. E mais: pode ser um início para que a Igreja Católica repense alguns de seus dogmas, como a não permissão de casamento de seus padres. Se não por uma questão de fé, por uma questão de necessidade.

É possível encontrar de tudo um pouco na Internet. Isso inclui até o aluguel de padres. Nos EUA, o serviço está disponível no site “rentapriest” (alugue um padre) – que atualmente também oferece o serviço em mais cinco países (África do Sul, Alemanha, Canadá, Índia e Malta).

Só no ano passado foram realizados 3 mil matrimônios. Divorciados e homossexuais desejosos de uma cerimônia religiosa e espiritual são os principais clientes. Mas não só. É que a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA estima que 37% das paróquias do país estejam sem padre.

Para oferecer seus préstimos via Internet, os padres tiveram que renunciar ao sacerdócio – em geral por terem rompido o voto de castidade. Eles continuam, entretanto, a celebrar casamentos (mediante uma remuneração) e outros sacramentos, como batismos e enterros (gratuitos, conforme a prática oficial). O detalhe é que a relação que lista 2.500 padres é classificada como “as páginas amarelas de Deus”.

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