Miscigenação (3)

8 de junho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, politica, sociedade

A insustentabilidade científica das cotas raciais

Quando a UnB decidiu que uma comissão deveria avaliar a raça dos vestibulandos examinando uma foto, qualquer geneticista poderia prever o vexame que estava por acontecer. Do ponto de vista científico, o método é ridículo – para dizer o mínimo.

Utiliza a opinião subjetiva de um grupo de pessoas (a comissão) para, por meio de um método indireto (olhar a foto), avaliar um indicador indireto (o fenótipo) de características hereditárias (o genótipo). Tudo isso para classificar pessoas de acordo com um conceito de valor científico questionável (raça).

Dadas essas condições, era mais que previsível que a comissão, mais cedo ou mais tarde, “errasse”. O que causa estranheza é que o departamento de genética da UnB não tenha pedido demissão em massa.

Também é fácil entender por que as “personalidades negras” se surpreenderam com a análise de seu genótipo. A maioria das pessoas decide a que “raça” pertence ao se olhar no espelho e observar seu próprio fenótipo.

Essa imagem mental é comparada com os dados culturais que a pessoa recebeu durante a vida (por exemplo, a crença em que Ronaldinho é branco e Pelé é negro), e resulta na associação da auto-imagem a uma dita raça. A pessoa então informa sua “raça” ao IBGE, que compila os dados e determina sua distribuição no Brasil.

Dada a natureza completamente subjetiva dessa metodologia, que passa longe do genótipo, não é de se estranhar que a auto-imagem de nossas celebridades não coincida com os dados obtidos diretamente de seus genes.

A realidade é que pessoas de diversas partes do mundo migraram para o Brasil nos últimos 500 anos e a maioria, acreditando que não existe pecado no sul do equador, misturou seus genes com as populações que estavam no país. O resultado é a diversidade que podemos observar nas ruas.

Tentar distinguir e segregar em grupos o que hoje é um contínuo só estimula o racismo e a discriminação. Qualquer sistema de cotas nas universidades públicas deveria ser baseado na condição socioeconômica dos candidatos, jamais em seu genótipo ou fenótipo.

Fernando Reinach, artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 7.6.2007. Para lê-lo na íntegra, acesse aqui.

Miscigenação (2) – Somos todos mestiços

4 de junho de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: ciencia, informacao, reportagem, sociedade, vida

Numa excelente entrevista, Luigi Luca Cavalli-Sforza, um dos maiores genetistas do século XX, afirma que não existem raças distintas entre as pessoas e o que nos define é a mistura genética. Uma outra afirmação importante é que somos distintos dos outros animais apenas por graus, ou seja, tanto nós como os animais possuem habilidade lingüística e capacidade de inventar e construir ferramentas, estando a diferença na nossa habilidade de aprimoramento, que é maior. A ciência está ajudando a nos enxergarmos como semelhantes, tanto entre os próprios homens quanto entre os homens e os animais.

Abaixo segue alguns trechos da entrevista publicada no Estado de S.Paulo, que pode ser lida na íntegra aqui.

Talvez seja surpreendente para algumas pessoas que a aparência física, como cor da pele, não sejam bons indícios da herança genética. Os brasileiros estão certamente entre os povos mais misturados do planeta, embora não sejam os únicos. A diferença é que nenhum dos outros grupos mestiços forma um povo tão vasto. O Brasil teve a boa sorte de não ver o racismo prosperando, como costuma acontecer noutros cantos. Isto provavelmente vem de uma herança portuguesa, povo que já demonstrava predisposição pela mistura racial desde os tempos de suas primeiras colônias, na África. O estudo de nossas origens genéticas apenas confirma o que já estava claro para bons observadores: a mistura entre povos e a produção daquilo que nós geneticistas chamamos de híbridos não traz qualquer desvantagem do ponto de vista genético. Até melhora, traz uma vantagem naquilo que chamamos de “vigor híbrido”.

As diferenças entre povos de locais geográficos distintos são claramente visíveis, caso de cor da pele e tamanho e formato das partes do corpo. Estas características refletem adaptações ao clima local que surgiram após a espécie humana se originar na África Oriental, há relativamente pouco tempo (não mais que 100 ou 150 mil anos, período bastante curto na escala evolutiva) e, naturalmente, após deixar a África, há coisa de 50 ou 60 mil anos. De qualquer forma, estas diferenças são triviais em todos os aspectos essenciais. A grande maioria das diferenças genéticas se encontram entre um indivíduo e outro, jamais entre um povo e outro. Falando em números, mais de 90% das diferenças genéticas se dão entre duas pessoas de um mesmo povo. Apenas 10% da variação se dá entre, digamos, europeus e asiáticos, entre africanos e americanos nativos. Isto acontece porque a nossa é uma espécie muito jovem e ainda não houve tempo evolutivo para nos diferenciarmos. Quer dizer: não existem raças distintas entre os homens.

Por definição, tribos falam a mesma língua, e a linguagem, por conta de seu gigantesco potencial de comunicação, há de ter sido uma força importante sem a qual a grande migração que levou o homem a todos os cantos do planeta não teria sido possível. Todos temos a mesma capacidade intelectual de adquirir esta técnica de comunicação que é a língua. Ela, junto com nossa capacidade de inventar novas máquinas, são as características que nos diferenciam dos outros animais. Embora, sempre é bom lembrar, esta é uma questão de graus. Animais também se comunicam e inventam ferramentas. A diferença na habilidade é que é tremenda.

Via Weblog.

Leia também: Miscigenação.

Miscigenação

31 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: recortes, sociedade

Mestiço, de Portinari (1934)Se falarmos em raça, sou um vira-latas, a mais universal de todas. Se falarmos em etnia, não faço a mínima idéia. Há uma lenda familiar já antiga que conta que a nossa prole se iniciou de um soldado espanhol fugido de uma guerra. Não se sabe qual guerra e nem quem foi esse tal soldado. Minha família tem outros sobrenomes que têm jeito de português. A família por parte de minha mãe suspeita que tem algo de italiano porque as pessoas da comunidade chamavam minha bisavó de italiana, mas é mera especulação. Meu avô por parte de pai dizia que tinha francês no meio desse mix [!] étnico. Mas a única certeza que tenho de minha ascendência vem da minha avó paterna, que era índia. Ela faleceu antes de eu nascer e soube que ela gostava muito de fumar cachimbo.

No Brasil é assim mesmo. Tenho pele e olhos claros, porém a minha única certeza é que sou descendente de índio. Se eu fosse julgado “no olho”, diriam que os traços europeus são prevalecentes em mim. Vim assim, na roleta jogada pelos genes. Mas diferentemente do que disseram algumas pessoas, o que eu tenho orgulho é dessa miscigenação que nos pegou a todos, e não porque me aproximo de uma maior pureza desta ou daquela raça (ou etnia). Enfim, tenho orgulho de ser brasileiro. (A pintura ao lado se intitula Mestiço, de Cândido Portinari, 1934).

Leia também: Transformações no Brasil nos últimos 60 anos.

Transformações no Brasil nos últimos 60 anos

25 de maio de 2007 por Mauricio Serafim
Categorias: sociedade

Entre os Censos de 1940 e 2000, a população brasileira cresceu quatro vezes. O Brasil rural tornou-se urbano (31,3% para 81,2% de taxa de urbanização). Nesse período, houve o envelhecimento da população brasileira, que na faixa de 15 a 59 anos, aumentou de 53% para 61,8%. O número de pessoas autodeclaradas pardas aumentou de 21,2% para 38,5%, reflexo do processo de miscigenação racial. Quanto à religião, nesses 60 anos, os evangélicos cresceram de 2,6% para 15,4% da população. O país conseguiu reduzir em cinco vezes a taxa de analfabetismo, que caiu de 56,8% para 12,1%. A taxa de escolarização, entre crianças de 7 a 14 anos, aumentou de 30,6% para 94,5%. Já o percentual de casados cresceu de 42,2% para 49,5%. Os brasileiros natos passaram de 96,6% para 99,6%. No período em foco, agricultura, pecuária e silvicultura, que em 1940 representava 32,6% da população ocupada, declinou para 17,9%, em 2000.

Via IBGE. Veja pesquisa completa aqui.

O que me chamou mais a atenção é a clara tendência de miscigenação do Brasil (veja tabela abaixo). Precisamos ler mais Gilberto Freire.

Transformações no Brasil nos últimos 60 anos

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