Mensagem de Portugal: Reflexões

1 de março de 2012 por Mauricio Serafim
Categorias: economia, politica

Abaixo reproduzo parte de um e-mail que minha colega de trabalho e amiga Luciana Ronconi me enviou. Ela está fazendo seu pós-doutorado no Instituto Superior de Economia e Gestão , da Universidade Técnica de Lisboa. Gostei tanto que lhe pedi autorização para publicar aqui no blog. Em seguida há uma breve resposta minha. Está aberto o debate!

“Aqui em Portugal muitas manifestações públicas contra as medidas tomadas pelo governo: privatizações, enxugamento da máquina pública…. Aqui a palavra de ordem nas manifestações (fotografei uma) é: “abaixo a Troika”. A Troika se refere ao trio, formado pela Comissão Européia, Banco Central Europeu e o FMI, que está negociando as condições para os empréstimos ou como se diz para o resgate financeiro da Grécia e de Portugal. Irlanda tb. Situação muito difícil. Os debates são calorosos. Uns que acusam o governo de estar adotando o neoliberalismo (isso me lembra tanto o Brasil!!!), outros que defendem as medidas como as únicas capazes de tirar o país da situação em que se encontra. O Primeiro Ministro, o Pedro Passos, está a todo o momento dando entrevistas e defendendo a posição do governo. Aliás adoro ouvir o Primeiro Ministro que, de fato, “chefia” e representa o Governo. Quinzenalmente o Primeiro-Ministro vai na Assembléia da República nos chamados debates quinzenais e responde às perguntas dos deputados.

Tenho pensado muito sobre qual deverá ser o papel do Estado nos próximos tempos… Aqui por ex. o chamado terceiro setor, que é sinônimo de economia social, me parece apenas um braço do próprio Estado.

Por ex. foi recriada uma Cooperativa que objetiva fortalecer a economia social no país. Ela junta Estado e as entidades da economia social e agrupa várias entidades tradicionais (ligadas às misericórdias) e tb as de economia solidária, ou cooperativas. Mas veja só: o capital social da Coopetariva está em sua maioria nas mãos do Estado. E o voto é proporcional ao capital…. Me parece um setor sem muita autonomia que depende de verbas do Estado que impõe certas contrapartidas… É isso que chamam de neoliberalismo??? Ou ao contrário é um Estado centralizador???

Mas vou investigar algumas dessas questões….

E essa questão das cooperativas fazerem parte do terceiro setor? Andei escrevendo nessa semana alguma coisa sobre essa questão.

Bem, mas na Espanha a situação parece pior. Mais de 5 milhões de desempregados. Muitas e muitas manifestações.

Bem, mas essa conversa iria longe… Sinto falta de fazer esse debate aqui. Observo que os profs daqui, e daí tb (nós todos), ficam tão repletos de trabalhos dentro de suas áreas… tantas exigências…. obrigações, prazos….não temos nem tempo de pensar… o pensar exige calma… muitos insigths que temos acabam se perdendo no meio do turbilhão de nossos afazeres.

Eu aqui a pensar…. e assim vou sentindo falta de nossas reuniões e troca de idéias… isso é para que a gente valorize nossos grupos de pesquisa.

Pq fazemos reuniões tão curtas?

Deveríamos, todos, nos retirar e ficar dias em uma “montanha mágica” (vc leu o livro do Thomas Mann?) travando debates… defendendo idéias liberais, idéias conservadoras, nos aproximando um pouco mais da filosofia, da política, da religião… com calma… com todo o tempo….

Bom escrever…

Agora vou tomar um cálice de vinho do Porto para aquietar o espírito!”

Minha resposta:

[...] fico imaginando o fervor que está na Europa. O que eu sinto (é uma impressão) é que está faltando – seja no Brasil, em Portugal, ou em outro lugar – debates e análises mais inteligentes e ousados. Volta e meia sempre adotamos nomes que não explicam nada ( o uso do termo neoliberalismo, para mim, está mais associado a uma necessidade psicológica do sujeito de diminuir a incerteza da realidade do que a explicação da própria realidade).

Sinto também muita falta de debates, de pensar, de conversar, de ter momentos mais criativos. Respondemos o tempo todo à burocracia, que é quase sempre infértil. Estamos tentando aos poucos ampliar estes espaços de convivência e diálogo, como os Cafés no DAP, mas sei que ainda é pouco. Sonho com uma universidade em que se possa estudar e debater mais!

Essa questão do Estado é ótima. A meu ver, o Estado está se tornando cada vez mais poderoso, não no sentido estritamente político, mas no sentido burocrático. Estamos caminhando para cada vez mais leis, mais regulamentações, mais invasão de nossa intimidade por normas que supostamente querem proteger alguém, mas que servem de porta de entrada para o controle da burocracia…

 

Política e religião (10) – Entre a cruz e o Estado

18 de novembro de 2009 por Mauricio Serafim
Categorias: politica, religiao

[...] Um exemplo da “indigestão” causada pelo relativismo no Ocidente é o recente caso dos crucifixos nas escolas italianas. Aparentemente uma mãe se queixou de que o filho se sentia “desrespeitado” porque, não sendo cristão, tinha que frequentar uma sala de aula com uma cruz na parede. A partir daí, teriam decidido pela proibição do crucifixo nas escolas.

Essa decisão é ridícula porque a cruz é um símbolo, seja eu cristão ou não, das raízes do próprio Ocidente, naquilo que ele mais preza: amor ao próximo, generosidade e justiça, enfim, um Deus que morre de amor. Nós contemporâneos somos ignorantes de um modo gritante acerca do cristianismo, confundindo-o com alguns de seus momentos mais infelizes e cruéis (toda cultura é infeliz e cruel de alguma forma). Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade, e os ignorantes que a realizaram deveriam ser obrigados a pedir desculpa aos cristãos.

Trecho do artigo do filósofo Luiz Felipe Pondé ( acesse aqui ). Um outro texto que também aborda o assunto e que foge do senso comum da intelectualidade universitária é este aqui .

Página 1 de 11