Falta que a gentileza faz

17 de setembro de 2006 por Mauricio Serafim
Categorias: capital social, civismo, ensaio, sociedade, vida

Power fo kindness

Passei no supermercado Pão de Açúcar para comprar algumas coisas e como acontece todo domingo, faltam caixas para o atendimento e filas enormes se formam. Deve ser para dar a dose de estresse diário, que não poderia faltar no final de semana. Mas o que me chamou a atenção não foi a desorganização da empresa, que de caixa parecem não entender muito (lembro do episódio da venda pelo supermercado dos ingressos do show do U2 no começo deste ano, que teve sérias falhas, inclusive com repercussão internacional).

Ao notarem a fila e a impaciência dos clientes, o pessoal do supermercado abriu mais dois caixas. O que seria mais justo? Que as pessoas que estavam na fila há um bom tempo tivessem prioridade e fossem convidadas para irem para esses caixas. Mas o que aconteceu foi que as pessoas que estavam acabando de chegar, ao verem o caixa abrindo, foram as primeiras a serem atendidas. Não olharam para os lados, não quiseram saber o que seria mais justo ou mais gentil. A empresa errou ao não organizar a abertura dos caixas, mas o que me impressionou foi a falta de gentileza dessas pessoas que “não olharam para os lados”. Foram adiante sem se perguntar se alguém poderia ter a preferência no atendimento. Eram senhoras, pais de família, pessoas de classe média, que muito provavelmente recriminam os “políticos” e acham a corrupção um escândalo.

Penso que a medida para sabermos se uma sociedade vai bem é o grau de gentilezas e honestidade das pessoas no seu dia-a-dia. Assim como as borboletas são os animais mais sensíveis à radiação nuclear e podem servir como alerta a uma catástrofe iminente, o desaparecimento aos poucos da gentileza pode ser um aviso do embrutecimento da sociedade. O episódio do supermercado é uma manifestação desse embrutecimento? Se for, estamos dando marcha a ré no nosso processo civilizatório e cada vez mais longe de construir uma verdadeira nação. Se quisermos que o Brasil seja um lugar decente e que dê certo, é fundamental começarmos com as coisas que estão ao nosso alcance, aceitando de uma vez por todas que justiça e honestidade devem ser vivenciados primeiro por nós, no nosso cotidiano. Caso contrário, estamos reproduzindo em pequena escala o que estamos vendo em grande escala na nossa política por meio dos jornais e revistas. E na maioria das vezes, acreditando que o problema sempre são os outros.

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