Escada do amor de Platão

14 de dezembro de 2008 por Mauricio Serafim
Categorias: filosofia, vida

Referindo à escada do amor de Platão, Renée Weber afirma que o passo inicial nesta escada, para a maioria dos humanos, ocorre por meio do amor físico quando uma pessoa busca um complemento à sua incompletude. Mas se toda a sua manifestação  de amor for restrita a essa única pessoa, e especialmente à forma física dessa pessoa, ela se desligará do Universo imenso e do imenso potencial da humanidade. Quando se está muito apaixonado, é como se o Universo estivesse concentrado nessa outra pessoa. Em certo sentido o Universo está nessa pessoa, mas é preciso transformar essa dimensão – ver não apenas ela, mas o Universo nela. O amor platônico, então, é (ao contrário do que é entendido no senso comum) um amor tão amplo, tão comovedor e tão universal que, embora comece como um amor pela forma bela, termina como um amor pela própria beleza, um principio eterno do Universo. Nos leva a perceber que todas as formas belas são dignas de amor. Você generaliza e se torna sensível a todas as formas belas. A beleza das idéias torna-se tão real quanto, e de mais real do que, a beleza física. O amor e a beleza estão ligados, porque você vê a beleza quando está amando, vê a beleza da mente, você se apaixona pela qualidade da mente da outra pessoa.

Sendo o primeiro passo o amor físico que depois transcende, o passo número dois é amar todas as formas físicas belas. O terceiro é amar a beleza da mente sem distinção da forma física à qual ela esteja associada. O quarto passo da escada do amor é o amor pelas práticas belas – a ética (manter a casa limpa). A integridade, a justiça, a bondade, a consideração – tais características também tem beleza e conduzem ao passo número cinco, que é o amor pelas instituições belas (a revista que está nascendo pode ser uma destas instituições) que representam o coletivo. O sexto degrau da escada do amor, a sexta manifestação do amadurecimento do amor é uma curva gigantesca para o alto, em direção ao universal e ao abstrato, é o que Platão denomina “ciência”, isto é, conhecimento e compreensão. Os grandes cientistas tais como Einstein, Kepler, Galileu, Newton afirmaram que ao articularem as leis do Universo, estavam estudando a lógica, a ordem e a beleza da mente de Deus.  Todos tinham uma espécie de paixão pela ciência e pelas leis do Universo. Giordano Bruno preferiu a morte à negação desse amor. O sétimo degrau é a passagem substancial, não mais a manifestação ou exemplo de beleza, mas a beleza em si. O ponto mais alto, o amor pela  manifestação eterna da beleza em si. Não mais a paixão pela forma bela mas pela sua essência, que torna bela todas as coisas. A beleza na sua origem.  O amor mundano e físico foi o inicio da busca da totalidade. O ponto de chegada é a visão do Universo, que liga o individuo à sua origem suprema, infinita.

Platão não deprecia o amor entre um homem e uma mulher – antes mostra que eles fazem parte desta ascensão ao divino, ao espiritual e ao imortal. O amor físico é um tal catalisador que conduz à paixão pelo Universo inteiro. O amor habilita-nos, a partir das belezas da Terra, a subirmos ao céu, diz Platão. O que começou no tempo, termina na eternidade; o que começou com o toque de uma pessoa, termina no abraço ao Universo.

Resumo da entrevista com Renée Weber feita por Scott Miners, intitulado “A visão espiritual da relação homem e mulher". E-mail enviado por Valdir Fernandes.

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11 comentários

  1. Oi Maurício! =]
    Ótimo este texto, achei super interessante.
    Li a entrevista inteira no site http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2005/04/amor_platonico.html

    Vale a pena? Pode um amor platônico ser mais intenso do que a própria vida? Como entender a imensidão dos sentimentos? A emoção da troca de olhares, aquela eletricidade que fica no ar, o “clima”…
    Saber se há correspondência ou se se trata somente de fantasias da alma apaixonada? Incertezas, esperanças não concretizadas, medos. A eterna pergunta “por quê”?
    O que este ser humano tem que falta nos outros?

    Abraços
    Jana =]

  2. Dayse disse:

    Olá Maurício!

    Eu como uma apaixonada por filosofia, não poderia deixar de comentar, apesar de não contribuir em nada, pois pudera eu explicar com palavras tal assunto tão nebuloso. Mas certas coisas existem não para serem entendidas, mas simplesmente vividas. No entanto, minha sede de aprender e tentar entender os mistérios que me cercam, são maiores. Sendo assim, ainda procuro entender o que me faz perder a noção do tempo, o que me faz entrar em conflito comigo mesma, uma batalha entre o coração e a mente, a razão e a emoção. Afinal, o que é razão nessas horas? Seria certo esconder-me de mim mesma?

    Quantas oportunidades perdemos por causa do medo? E mesmo quando não temos nada a perder.

    Abraço!

  3. Valdir disse:

    Mané,

    Fiquei surpreso em você colocar o texto no site…, mas como diz Patrick Poll, filosofo francês da transdiciplinaridade o conhecimento é sempre coletivo e não pertence a uma pessoa. Com relação à esse texto, minha experiência é que o amor a uma mulher nos leva amar o Universo. Esta é, com efeito, minha experiência que desejo a todos…
    abraços
    Valdir

  4. Valdir disse:

    Mané…corrige o português

  5. Vc ficou surpreendido no bom sentido ou no mal? Como vc enviou por email e te dei os devidos créditos, acreditei que não teria problema. Veja os comentários que suscitou o texto. E como diz o Budismo, fazer o bem a uma pessoa [e fazer o bem à humanidade, e pensando por este lado, vc está corretíssimo. Um abraço

  6. Afonso Vieira disse:

    Gostei do texto. O amor tem muitas faces, a nossa caminhada existencial também. A ordem desses degraus da escada podem ser diferentes pra cada um. Também creio que a mulher escreveria esses texto sobre um outro olhar. As vezes um encontro pode acontecer antes do toque. A essência vir antes da aparência, o amor físico depois do existêncial. Bem, eu ainda me pergunto o que é o amor!? E vivo na busca de um encontro “perfeito”, universal, pessoal!
    abraço meu amigo,
    Afonso

  7. Afonso Vieira disse:

    Mais uma coisa que me ocorreu é que o degrau inicial possa ser o amor a si mesmo, a toda sua forma interna e externa, um contato organísmico. Também experimento extase, realização, “amor”, tocando meu violão, tomando um vinho, dançando. A arte faz parte dessa escalada.
    até…
    Afonso

  8. Valdir disse:

    Mané, fiquei surpreso no bom sentido!
    Afonso, acho que idependente de qual seja o primeiro degrau, a lição é que o amor possa proporcionar o nosso acesso a beleza, à liberdade e à abertura, condições para nossa felicidade.

  9. Monica Hoffmann disse:

    Maurício, volta e meia encontro em seu blog explicações ou pensamentos há muito procurados, não só por mim, estou certa.
    Parabéns!

  10. Obrigado, Monica! Vejo que as mensagens das garrafas jogadas no mar estão encontrando pessoas interessantes e interessadas. Um abraço.

  11. Ade disse:

    Como difícil subir esta escada e nela encontrar serenidade pra olhar ,rebubinar cada instante doloroso da subida!

    E quem em sã consciência se lança infante, antes de emplumar-se e desatar o chumbo dos seus pés?

    Quem?

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