Empreendedorismo social – "Antes eu tinha dinheiro, agora sou rico"

7 de junho de 2008 por Mauricio Serafim
Categorias: empreendedorismo, sociedade, tecnologia, vida

Da Época Negócios Edição 16 – Junho de 2008 | 04/06/2008

Ele quebrou o silêncio

O canadense Howard Weinstein criou em Botsuana a única empresa que fabrica aparelhos auditivos na África e a única do mundo que emprega pessoas deficientes no processo. Agora Howard está no Brasil para replicar o modelo de sucesso

por Rafael Barifouse

Num domingo ensolarado, o canadense Howard Weinstein saiu de sua casa em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, e foi até o bairro dos Jardins para protestar. Participava do Dia Global por Darfur, 29 de abril, que marcou o quarto ano do embate político entre grupos de oposição daquela cidade e o governo do Sudão. Em frente ao consulado russo, Howard manifestou sua indignação por 200 mil vítimas e 2 milhões de desabrigados em conseqüência do conflito e pelo apoio da Rússia ao governo sudanês com um cartaz em que se lia: “Libertem o povo de Darfur”. Enquanto milhares marchavam pelas ruas das principais capitais do mundo, ele fazia um protesto de um homem só no Brasil.

Howard sabe que seu ato solitário não mudou a política internacional russa, mas, para um idealista criado pela contracultura da década de 70, era importante estar lá. Aos 58 anos, ele entende a diferença que uma pessoa pode fazer por uma causa. Ele é o protagonista de uma história de transformação vivida na pequena cidade de Otse, no sul de Botsuana. Foi lá que criou a Godisa Technologies, a única empresa que produz aparelhos auditivos na África e a única do mundo que emprega deficientes auditivos no processo. Agora está no Brasil para replicar o modelo.

O conceito original foi criado pela ONG africana Camphill Village, que buscava uma saída para um desequilíbrio de mercado. Há 250 milhões de pessoas no mundo que precisam de aparelhos auditivos, segundo a Organização Mundial da Saúde, mas só 16 milhões são produzidos por ano. Desses, 12% são feitos em países em desenvolvimento, onde estão dois terços das pessoas que precisam deles. Isso porque o acesso a tratamentos e remédios contra infecções surgidas após o nascimento é restrito nesses países, o que aumenta a incidência desse tipo de deficiência. Mas havia outro problema. O preço de um aparelho auditivo varia entre R$ 1 mil e R$ 10 mil. A maioria dos deficientes auditivos do mundo não pode arcar com esse custo. E, quando podem, acabam deixando o aparelho de lado, pois a sua bateria dura apenas uma semana e custa R$ 3. A solução para as duas questões viria na forma de um aparelho auditivo de baixo custo, com baterias recarregáveis a energia solar.

Howard não sabia o que fazer da vida quando aceitou participar do projeto. Dois anos e meio antes do convite, vivia confortavelmente em Montreal, no Canadá, graças à venda de sua empresa de encanamentos, na qual permaneceu como presidente. Na época, sua filha Sarah, de 10 anos, faleceu vítima de um aneurisma. No dia seguinte, Howard foi demitido. “Eles achavam que eu não conseguiria conduzir bem o negócio depois do trauma”, diz. “Fiquei perdido.” O empresário tirou um ano de folga, fez terapia e, recuperado, criou uma empresa de assentos higiênicos eletrônicos. Mas diz que não se sentia realizado. Quase falido, começou a buscar trabalhos em países em desenvolvimento até ser chamado pela ONG World University Service of Canada para ir para a África por um salário mensal de US$ 1 mil. Aceitou.

Howard levou 18 meses para fabricar o primeiro aparelho auditivo Solar Aid. Especialistas se encarregaram da missão de criar as tecnologias inovadoras do kit: as baterias recarregáveis com vida útil de dois a três anos e o coletor de energia solar para abastecê-las. Ambos funcionam com qualquer modelo de aparelho. Nenhuma das invenções foi patenteada. “Será ótimo se grandes companhias usarem nossas invenções ou as copiarem”, diz Howard. “O seu poder de distribuição seria muito maior do que jamais teremos.”

Coube ao empresário, pós-graduado em negócios internacionais, elaborar um plano sólido e ir atrás dos US$ 500 mil necessários para o projeto. A African Development Foundation e o instituto de educação do investidor americano George Soros gostaram do plano de Howard. Após o primeiro financiamento, a Godisa seria auto-suficiente com a venda do Solar Aid por R$ 250. Os 30% de lucro seriam suficientes para pagar as contas, o salário de dez funcionários e fazer novos investimentos. Além disso, são os próprios deficientes auditivos que fabricam os aparelhos. “Eles chegam desconfiados, mas mudam de atitude quando entendem que o projeto é deles”, diz Howard. Com a habilidade motora desenvolvida pela linguagem de sinais, eles são ideais para fazer as soldas delicadas dos componentes eletrônicos.

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