Ecletismo? Não, obrigado – por José Nilson
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Está ficando cada vez mais comum eu perguntar para alguém do que gosta – seja música, filme, comida, o que for – e me responder de forma padrão: “sou eclético”. No início eu até considerava interessante esse estado de “gostar de tudo um pouco”, afinal eu achava que isso demonstrava um certo grau de despojamento e abertura à “diversidade cultural” que eu não tinha. Mas aos poucos, os meus nervos aderiram à tolerância zero. Eu me perguntei como pode uma pessoa gostar ao mesmo de Machado de Assis e de uma redação do tipo “como foram as minhas férias?”, porque ecletismo seria isso, não é mesmo? Mas aí comecei a descobrir que os ecléticos, na verdade, não gostam tanto assim de Machado, acham a música clássica chata, o rock muito barulhento, bolero coisa de velho, e que toda música “calminha” é Enya.
Enfim… mas os ecléticos são gente boa, geralmente são mais simpáticos que os não ecléticos, e quando pegam carona e no som do carro está tocando uma música clássica, sempre perguntam para puxar conversa se é ” aquela música do Vivaldi “. Aí você tem que responder que é, bem, o Réquiem de Mozart . Mas ninguém é obrigado a saber distinguir Vivaldi de Mozart, certo? Mesmo assim foi por aí que comecei a entender melhor o tal do ecletismo. Acho que o cerne da questão é a não distinção.
Para quem adere ao ecletismo, “tudo está bom”, e, portanto, não é preciso escolher. Quem escolhe é aquele que não é eclético, aquele que não gosta de certas coisas. E para escolher é preciso conhecer um pouco da coisa escolhida e esforçar-se em distinguir o que é bom e prazeroso do que não é. Talvez até seja o caso de dizer que gostar de tudo um pouco não existe, porque gostar requer julgamento, inexistente naqueles que se dizem ecléticos. Não seria mais exato dizer então que gostar de tudo seria, na verdade, “aceitar tudo” e que ter gosto é ser um pouco intolerante? O que você acha, Mauricio?
José Nilson*, num dia de verão ensolarado em Criciúma.
*José Nilson é um “filósofo brasileiro”, com toda a informalidade que a palavra “brasileiro” possui. É o meu alter ego sem superego.



Bom dia, José e Maurício. Sei que venho tardiamente a esta postagem, mas é que criei, há pouco tempo, um blog para eu falar de minhas atividades musicais e o assunto “ecletismo” acaba esbarrando um pouco, ainda que de uma maneira distorcida, na essência conceitual do meu blog, que se chama “Do Rock ao Choro”. Então andei dando uma pesquisada na internet sobre ecletismo e encontrei seu blog. Bom, eu sou músico profissional e venho de uma família de músicos, principalmente violonistas, e as influências de nossa família se voltam para MPB de um modo geral: Bossa-nova, samba, choro, compositores em violão erudito e popular (João Pernambuco, Paulinho Nogueira, Dilermando Reis), etc. Mas ao mesmo tempo, minha adolescência é da geração dos anos 90, e eu convivi com amigos e alguns primos que gostavam de Rock nacional e internacional, que nesta época estavam fervendo com a MTV. Nesta época também, eu já tocava violão (comecei aos 13 anos) e cresci tocando no violão esses dois universos musicais tão distintos: tocava Choro e Clássicos do violão com a família e tocava Rock na roda com os amigos, na rua. Conclusão: Hoje, por mais estranho que possa parecer, eu amo e me emociono tanto com um Choro de Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo ou Ernesto Nazareth, quanto com um Rock nacional de Paralamas do Sucesso ou internacional de Dream Theater. Agora, o mais importante é deixar claro que eu não me considero uma pessoa eclética, porque os ecléticos são como vocês disseram, são pessoas não-seletivas, que ouvem música de maneira superficial e não sabem apreciar o verdadeiro sentido das músicas como um todo. Eu, ao contrário, sou totalmente seletivo, e como músico que sou, só aprecio música que considero boa, rica em harmonia e melodia, bem executada, ou seja, música que se possa apreciar tecnicamente, instrumentalmente, liricamente e historicamente. É claro que não sou o dono da verdade e meu gosto musical não é o melhor do mundo, mas eu apenas seleciono aquelas músicas que me emocionam. Sendo assim, meu blog não trata de ecletismo, mas sim de seletismo não preconceituoso em relação a gênero musical. Gostei muito desta postagem de vocês e também concordo que o mais certo é a pessoa dizer que aceita todo tipo de música, ou que ouve música só pra dançar, ou que ouve música só pra quebrar a monotonia de um silêncio, ou… sei lá, mas não sei se ser eclético é ter cultura musical. O que acham?
Ah, quando puderem, visitem meu blog:
http://dorockaochoro.blogspot.com
Abraços!
otimo mas complete ta vago
Bom dia galera, sei que este post já é antigo, mas não posso deixar passar este tema. Sei muito bem o que você quis passar Maurício, mas a definição de eclético ( ou o ecletismo) não é esta, você descreveu a generalização errônea que nós brasileiros costumamos fazer com as palavras (malditos brasileiros). Bom, pessoas ecléticas são aquelas cujo pensamento liberal busca em todas as áreas a essência de cada atividade e sua expressão. Para simplificar: uma individuo pode gostar de Maria Bethania e de AC/DC, são estilo distintos, mas cada música expressa um sentimento diferente no qual ele aprecia.
Pessoas que falam que gostam de tudo não são ecléticos, e sim, como haviam dito antes, indivíduos com ausência de julgamento.
Muito interessante esta distinção. Obrigado
As palavras do Otacilio conseguiram clarear a minha mente.
Essa distinção que ele descrever, eu posso aplicar em outras áreas, como por exemplo: arquitetura, automobilismo, vestimentos.
Abraço….Erick Serejo
Desculpa escrever sobre seu texto tão tardiamente… mas ando pesquisando sobre ecletismo para uma tese de mestrado… e a definição de Otacílio me pareceu muito conveniente. Assim como o dicionário:
Eclético – 1. que seleciona o que parece ser melhor em várias doutrinas, métodos ou estilos (HOUAISS)
ao meu ver, parece simples compreender que o ecletismo parte do preceito que cada indivíduo seleciona pontos (musicais, artisticos, comportamentais, politicos e etc), que julgam ser mais adequados ao seu estado de espirito e personalidade, sem que esses pontos tenham semelhanças, ligação histórica ou qualquer detalhe que os tornem convergentes. Esse termo, desde sua origem, serviu para justificar escolhas inversas, ou melhor dizendo, de nichos controversos. Assim, o verdadeiro ecletico tem consciencia das coisas que gosta e do que nao suporta, só que se analisada sua personalidade, será possivel encontrar um apreciador de música barroca e Soul ao mesmo tempo.
Olhando na atualidade, com a necessidade de rotulação e denominação de estilos e comportamentos, o eclético veio à tona uma vez que a as pessoas anseiam se libertar das privações experimentais únicas e gozar, com a ajuda da globalização de informações, de todos os mais variados tipos de culturas e modos de vida existentes.
POr fim, ao meu ver, não exista pessoa no mundo que goste de tudo, mas sim, que tenha uma seleção mais variadas podendo ter pontos contrários ou sem ligação.
Para os que dizem gostar de tudo, ou nao se conhecem ou são eazy going.
Obrigada e parabens pelo post!
olá Rafhaela, eu quem agradeço sua mensagem. Obrigado pela reflexão e boa sorte no mestrado! Gostaria muito se vc puder me manter informado sobre a tua pesquisa e fazer um post dela aqui no blog. Um abraço