Conversa cabeça… e coração
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Este é um pequeno diálogo hipotético entre dois personagens: a Cabeça e o Coração. O primeiro pode representar a Modernidade e o segundo alguma coisa que se deixou na Idade Média. Também pode representar o que acontece no dia-a-dia, o critério que temos para as decisões que tomamos.
O Coração diz: “quero!”, mas a Cabeça, com suas ardilezas racionais, diz: “são tantas barreiras! Tantas dificuldades! De acordo com a probabilidade…”. E o Coração retruca: “Cabeça, a vida tem que ser vivida como uma obra de arte, e não como um algoritmo matemático!”. A Cabeça se zanga e grita: “mas assim se sofre menos!”. E o Coração – o mais gentil dos órgãos, porque se doa 24 horas por dia para que os outros órgãos sobrevivam – fala em tom conciliador: “se sofre menos e se vive menos. Por que ter medo da dor? Dor é parte da vida, não algo antagônico a ela. O pintor, antes de começar seu quadro, sofre em seu ato criativo, sofre pela imagem não vir a sua mente, pela sua falta de inspiração ou por pensar que deu a pincelada errada. Ele pode desistir, pode querer passar pela vida sem mais complicações, mas deixará de ser um pintor”. A Cabeça, mais calma com a voz tranqüilizadora do Coração, perguntou: “mas, o que devemos fazer?”. O Coração, de modo amável, mas firme, disse: “o que vale na vida é viver. A felicidade é a vida que é jorrada, doada e amada. Quando se vive assim, as coisas acontecem, principalmente por maneiras que nunca poderíamos ter previsto”.
Então, a Cabeça racionaliza todas esses informações, faz uma “análise crítica” e afirma como um resultado de uma pesquisa científica: “são palavras bonitas, mas o que vale é a lógica, a premeditação, o planejamento, o controle. É isso o que conta e que é viável, e não esse seu romantismo e ingenuidade que embaçam a realidade!”. O Coração se calou. Sabia que era um romântico. Mas dava um outro sentido para a palavra. Romântico para ele é aquele que revela algo de cavalheiresco, de apaixonado, de nobre, que se eleva acima de uma realidade prosaica e banal. Mesmo assim, o Coração se recolheu, cessou seu diálogo com a Cabeça. Ela saiu vitoriosa. E o Coração continuou a bater todos os dias, todos os momentos, se doando a todos os órgãos. Inclusive para a Cabeça.


