Cem anos de um invenção que mudou o mundo
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[...] Mas eu gostaria de lhes falar sobre os 100 anos de invenção da síntese da amônia. Poucos conhecem o assunto e vocês provavelmente não o encontrarão na grande mídia. O que é um grande pesar, porque pouquíssimas invenções, se é que existiu alguma outra, concretizaram em um único fato histórico uma síntese tão perfeita e tão dramática da anima humanitas , a alma humana, dividida entre os anjos e demônios que ela própria cria, ao mesmo tempo capaz de realizações tão belas e escrava de desvarios horrendos.
O químico alemão Fritz Haber, em 1908, descobriu como sintetizar a amônia a partir do nitrogênio e do hidrogênio atmosféricos. Outro alemão, Carl Bosch, viabilizou a descoberta, criando o que passou a ser conhecido como Processo Haber-Bosch.
Hoje, um século mais tarde, bilhões de pessoas são alimentadas graças a essa descoberta. Foi a síntese da amônia que permitiu o desenvolvimento dos fertilizantes químicos, que hoje garantem a produtividade de quase metade de toda a agricultura mundial, e que viabilizou toda uma indústria química que está na base da maioria dos nossos confortos diários.
Mas foi essa mesma descoberta que desenvolveu a indústria de explosivos e bombas e deu origem às armas químicas. E que, mesmo em tempos de paz, tornou-se responsável pelo lançamento de milhões de toneladas de contaminantes no solo e nas águas subterrâneas todos os anos.
O próprio Dr. Haber encarnou essa dicotomia como nenhum outro cientista. Depois da descoberta que lhe valeria o Prêmio Nobel, em 1918, ele se dedicou ao desenvolvimento das armas químicas. Sua esposa, também doutora em química, compreendendo o que seu marido fazia, matou-se em protesto. Haber não apenas não desistiu, como quis inspecionar pessoalmente a “eficiência” de seu compostos químicos mortíferos nas trincheiras russas.
Em defesa do Dr. Haber, certamente os benefícios de sua invenção, que se fazem presentes continuamente, superam seus malefícios. E em nossa própria defesa, agora precisamos de novas descobertas, sem tantos efeitos colaterais, para eliminar os danos já causados e evitar novos. Ao menos contamos com o exemplo, que ele nos sirva de aprendizado.
Editorial de Agostinho Rosa para o site Inovação Tecnológica.


