Cartas à milanesa (III)
Categorias: academia, administracao, comportamento, cultura, politica, sociedade
Estou percebendo algumas diferenças do ambiente acadêmico da Itália em relação ao Brasil.
Fico surpreendido com o meu orientador italiano – prof. Alberto Martinelli, da Univeridade de Milão, um acadêmico com um currículo respeitável – que debate com seriedade temas como responsabilidade social empresarial, empreendedorismo e administração, que passam muitíssimo ao largo dos departamentos brasileiros de sociologia e ciência política. Prof. Martinelli – que trabalhou com Neil Smelser e Philip Selznick na Universidade de Berkley – se dedicou a esses temas abordando-os sociologicamente. Conhecendo seus livros e os de seus colegas que estão sendo publicados, percebo que há um grau de ideologização menor que no Brasil. Eles estão mais preocupados em analisar e compreender um fenômeno social – geralmente um problema atual, como a imigração, a pobreza, a União Européia e a globalização – oferecendo recursos teóricos para ações futuras de atuação na sociedade do que estabelecer terrenos ideológicos e ter comportamentos preconceituosos a alguns assuntos e temas, como acontece no Brasil. Para se ter uma idéia, um colega do doutorado da FGV me recomendou que eu não mencionasse a palavra “empreendedorismo” quando fosse falar com um antropólogo ou sociólogo brasileiro porque temas do universo da gestão não são bem aceitas, a não ser que seja do ponto de vista “crítico”.
Um outro fato que me surpreendeu foi um cartaz na Universidade Estatal de Milão que convidava para uma reunião os estudantes de “direita”. Fiquei parado, olhando o cartaz, quase não acreditando, porque é impossível imaginar que isso possa acontecer em uma universidade estatal brasileira. E fiquei me perguntando se a falta dessa diversidade de pensamento e do diálogo com quem pensa diferente não está fazendo muito mal ao meio acadêmico brasileiro. Será que não devemos reaprender, como na pintura deste post, com Platão e Aristóteles? Certo que eles não estavam discutindo sobre direita e esquerda, mas – como suas mãos sugerem – sobre o em cima (mundo das idéias) e o embaixo (mundo vivido). Bem, isso é uma outra história, mas fica a lição.


